À Rua do Morcego minha reverência e gratidão

10/03/2018

Por: Haroldo Gomes
Outro dia, vi Lirinha (vocalista do Cordel do Fogo Encantado) dizer, e gostei, que suas raízes são “aéreas” para firmar sua condição desterritorializada, fugindo da noção torta de identidade espacial, cultural, tantas vezes excludente. Ser brasileiro, nordestino ou potiguar não é a minha identidade, é apenas um pertencimento a um conjunto diverso. Dito isso, resolvi escrever sobre um dos espaços que carrego comigo, uma das bases de minha formação: a tradicional Rua do Morcego. 
 
Para quem não conhece, a Rua do Morcego foi uma nominação, um jeito de conceituar um território que se estendia entre as ruas Sargento Amor Divino, Sargento Noberto Marques, Tenente Ferreira Maldos, e adjacências, com o coração na primeira, no centro de Parnamirim. Espaço de pura fabulação: aquilo que no real você procura e não encontra mas sabe que existe. Nele vivi minha infância e adolescência. Nele aprendi os valores da solidariedade, da palavra firme, do perdão, da alegria, do reconhecimento do trabalho como fonte de conquista e de formação. Nele convivi com uma gente de valor.
 
Na Rua do Morcego, vivi meu tempo livre. Epifania de alegria, a rua foi campo de futebol mirim e de “queimada”; de jogo de dama a futebol de botão; mas, também, de iniciação à leitura. Os livros de faroeste que o amigo Tonho Baixinho emprestava me proporcionaram os primeiros passos na leitura.   
 
Como extensão dela, tínhamos o Campinho (espaço por trás da atual Maternidade Divino Amor), campo de mini futebol onde as “peladas” aconteciam especialmente nas tarde de quarta a sábado e na manhã do domingo, sempre apostadas. À boca da noite, muitas vezes, a calçada da casa de Seu Ivanildo Sax de Ouro recebia o pós-jogo e seus debates acalorados que, quase sempre, obrigava Dona Lúcia, sua esposa, a aparecer no portão e fazer um sinal pra gente baixar o volume. Um espaço de conversas entrecortadas, bricolagens, assuntos variados, de política a futebol, os temas mais quentes.
 
Numa outra das artérias da Rua (que eu ia caminhando) estava o Ginásio Augusto Severo, onde estudei por sete anos e outra dimensão da vida se apresentava pra mim: a seriedade do estudo, num ginásio particular que meus pais (um pedreiro e uma merendeira) pagavam com extremo esforço e onde minha obrigação era apenas a de não repetir o ano pra não gerar mais despesas. E cumpri.
 
Até os 17 anos, o meu mundo quase se resumiu à Rua do Morcego, o que me faz concluir que sou um corpo bem afetado por este espaço; produto da convivência neste território fabulado e sou grato por grande parte das inscrições dele em mim. Mas, aqui não há nenhum saudosismo, nenhum esforço vão pelo retorno de um tempo que se foi e não volta mais. Apenas a atuação de uma memória que reconhece as coisas boas que permanecem. 
Na escrita desse texto, em algum momento, quis citar nomes de pessoas, especialmente os mais antigos, os que não estão mais conosco, mas temi cometer a injustiça de esquecer alguém. Minha reverência à Rua do Morcego.