Parnamirim

A Vila Navy e Parnamirim

Escritora e Poetisa curraisnovense fala de maneira poética e nostálgica da adolescência e as férias na vila militar em uma cidade tranquila e segura.

Por: Maria Maria Gomes
18/01/2018

Dezembro já havia passado e janeiro se apresentava robusto, mas leve para mim. Era a época das férias escolares. Meu irmão mais velho morava na base aérea com sua família, na famosa Vila Navy, um lugar de calmaria para um coração caatingueiro e irrequieto, cheio de asas e de anseios. Era militar da Aeronáutica e, para eu não ficar apenas nos campos acinzentados da caatinga seridoense, que para mim não seria má ideia, minha mãe me “rebocava” a Parnamirim a fim de que eu desfrutasse das férias. Na realidade, ela precisava se sentir livre das minhas diabruras, próprias de alguém que carrega inquietações preliminares à adolescência. Eu não parava sequer um minuto e ela agradecia a Deus quando as abençoadas férias chegavam. A frase era sempre a mesma: “vá, menina, vou sentir uma saudade com um alívio!” Que contraditório, saudade aliviada? Ôxe, nunca ouvi falar, logo eu, tão boazinha!
 
Lá íamos nós ao terminal rodoviário. Meu pai, eu e minha malinha vermelha de poá branco. Era o ano de 1979 e meu irmão me esperava na rodoviária velha de Natal para me levar para Parnamirim. Nessa época eu viajava sob a responsabilidade do motorista que era amigo do meu pai e conhecia bem o meu irmão. O motorista não era muito afável comigo, olhava-me com a cara de bicho do mato. Deveria pensar assim: “Se essa pestinha der trabalho, eu dou-lhe um cascudo”. No final, Tudo sempre dava certo. Eu me sentia a própria mocinha independente por viajar sem meus pais, me mantinha calma e doce. Dentro da bolsinha de mão, eu levava Pollyanna Moça, de Eleanor H. Porter. Já havia lido Pollyanna Menina e gostava de ler, então, sem livro não poderia viajar.
 
Logo ao chegar em Natal, meus sobrinhos me esperavam ansiosos dentro de uma Variant azul clara, o carro da família! Abraços e beijos e a Variant, uma amiga “perua’ quase humana, nos conduzia desfilando pelo asfalto e pelas ruas de calçamento do centro de Parnamirim. Uma cidade, evoluindo, com um comércio básico e ruas estreitas. Apenas a avenida Brigadeiro Everaldo Breves até os blocos dos oficiais ficara marcada em minha memória, porque era sempre comum meu irmão fazer um passeio pelas ruas da cidade, antes de irmos para a Vila Navy, na base aérea.
 
A vila era a dos oficiais e lá havia um lago construído pela força do homem e ajudado pela natureza. Nós brincávamos de tudo: tica-esconde, matada, esconde esconde e/ou pedalava em uma velha bicicleta Caloi por todos os espaços daquela vila especial de Parnamirim. 
 
As casas eram muito parecidas. Tinham todas o mesmo formato, a arquitetura, a a medida. O que mudava mesmo eram as pessoas, os móveis, o interior da casa e suas intersubjetividades exaladas nas expressões de alegria, mágoa, discussão ou destempero familiar que a mim não cabiam interrogações. Para as compreensões da menina do interior bastavam os cheiros. Sim, a sinestesia que rodeava o ambiente: o cheiro da casa, o cheiro das pessoas, o cheiro das plantas e o cheiro do próprio vento que entrava na porta central e adentrava janelas de alisares largos, bem largos. De longe, o mar era próximo e chegava às minhas narinas pelo vento auspicioso das marés que se balançavam às carícias das jangadas. Parnamirim era perto do mar e por isso eu nutri afetividade por ela.
 
Adorava minhas férias ali, na Vila Navy, porque havia um silêncio digno de ser chamado Paz, além das alvissareiras mensagens trazidas pelo tempo, mensageiro de todas as gerações. Não se via transeuntes da cidade passeando pelas ruas asfaltadas da Base Aérea, apenas soldados em serviço, subindo e descendo, verdadeiramente lindos, divinamente belos. Eu percebia certo ar de romantismo, incendiando perfumes um pouco dos que nunca vi. Não sei! Mas, era tão nostálgico aquele sentimento, mesmo sem eu tê-lo vivido antes! Eu era jovem e entre mim e o mundo despertando curiosidades existia o receio de conhecer o novo.
 
 A menina, ainda cheirando a infância, vivenciava os primeiros encantos da sexualidade, da afetividade e do namoro. Era muito curioso porque a gente tinha a chance de fazer boas amizades, aprender coisas interessantes, contemplar a natureza e desfrutar do espaço arborizado e com total segurança.
 
Após o almoço eu deitava para tirar um cochilo e sonhava com aqueles cadetes maravilhosos, muitos de olhos azuis, verdes ou negros, fardados com caps bem colocados na cabeça, e coturnos brilhantes, roupas impecavelmente sem dobra ou curva desavisada pelo ferro de passar. Vinham eles em fila, atravessando a casa onde eu ficava durante as férias. Às vezes eu os via passar de tênis, meias, calções e camisas regatas, exibindo corpos hercúleos endeusados pelo enamoramento das minhas primeiras paixões. E eu via aqueles meninos de 18 anos e me via em meus 13, inocente e vivenciando a Síndrome da Cinderela. Eu me encantava.
 
Acordava com o barulho dos aviões cruzando os céus indo ou vindo de diversos lugares do mundo para o aeroporto Augusto Severo, justamente, onde eu estava bem próxima. Os aviões eram pássaros de ferro e eu só os via de longe. Lembro-me das tardes de devaneio, das horas de diversão com meus sobrinhos e amigos pela mata selvagem que rodeava as imediações do quarteirão.
 
Essas lembranças marcaram, como lacres de cera marcam as cartas antigas, as minhas histórias primeiras que se seguiam em séries contínuas. Até que meu irmão comprou uma casa na cidade de Parnamirim e as minhas férias já não eram as mesmas. Mais cuidados, menos liberdade e os namoros sempre em frente à casa de número 55, onde nascera um caramboleiro frondoso e frutífero. As férias no novo lugar não se pareciam nem um pouco com as saudosas tardes de liberdade, até certo ponto, libidinosas.
 
Tempos adiante, caminhando pelas estradas da maturidade, lecionei em algumas escolas de Parnamirim. Vivi por apenas um ano e meio, mas o suficiente para colher as amizades antes plantadas durante a minha adolescência recheada de questionamentos, próprios de menina “avexada” do interior potiguar.
 
Agora, não tenho a malinha vermelha de poá branco e nem carrego os livros de Eleanor H. Porter, experimentos prazerosos de leitura nua, sem crítica. Hoje, Clarice Lispector, Adélia Prado ou Ramos Rosa... são tantos! Meu olhar expandiu-se em variados coqueirais com muitas frestas para eu exercer a criticidade da leitura e da vida.