O doce da liberdade: Texto de Janduhi Medeiros sobre a Parnamirim antiga

05/01/2018

Por: Janduhi Medeiros
Foto: Redação do PN
O cotidiano do sertão com seus hábitos hebraicos e tradições ibéricas influencia a rotina da cultura do vasto território nordestino, principalmente, o dia a dia da molecada. Pra se ter uma ideia, criança pobre do sertão não precisa de Papai Noel, ela mesma monta seus brinquedos, aguçando ainda mais as traquinagens que o encanto da existência juvenil proporciona. Por exemplo, furtar mangas nos roçados alheios, aos domingos, depois das brincadeiras e de um banho no rio, armado de baladeira, não tem astúcia maior. A infância de Carlinhos, personagem de José Lins do Rego, do livro Menino de Engenho, não faz inveja aos meninos do sertão. Aquela passagem de Carlinhos se deslumbrando com um caule de bananeira, a criançada do sertão conhece muito bem, bota bem nisso. Tem mais! Além do caule de bananeira, os pivetes do sertão têm as melancias e o imenso rebanho de pequenas ruminantes espalhadas pelos tabuleiros aquecidos na inóspita caatinga brasileira. Mas, chupar manga furtada, sentado nas pedras, com a metade do corpo dentro d'água, com o rio, ainda, correndo pelas areias e lajedos do sertão, não tem contemplação melhor. Você vai se lambuzando e se limpando, ao mesmo tempo. Imediatamente, um punhado de peixinhos se acumula aos seus pés, como cardumes perdidos nas cacimbas deixadas pelo bom inverno, esperando que você jogue as cascas. Eles também faziam a festa.
 
Consultando a antiga Enciclopédia Barsa, constatei que a mangueira é originária da Índia, mas parece árvore brasileira, pois o fruto é muito apreciado e cultivado pelo povo dessas bandas. A mangueira parece que é parte indissolúvel da Mata Atlântica. Talvez pelo sabor e pelas cores, que lembram muito as sensações dos pecados equatoriais. Além do mais, é muito rica em nutrientes. Penso que deve ser afrodisíaca. Tenho um amigo que garante que sim. Pelo menos com ele funciona muito bem. Certa vez, tirando umas manguinhas, às margens do Rio Seridó, de repente, escuto um tiro, um amigo grita:
 
 - É um tiro de sal!
 
Pulo da gigantesca mangueira, igual a um malabarista desesperado, saiu correndo feito um leopardo. Graças a Deus, o tiro passou de raspão, mas acertou o colega do lado, que até hoje mostra com orgulho as marcas daquele tiro. 
 
Tempos depois, meu pai foi transferido para trabalhar na Base Aérea, em Parnamirim. A mudança foi em janeiro de 1975, período da safra de manga. Nunca vi tanta manga na minha vida. Todo quintal na cidade tinha uma mangueira, como também os espaços urbanos eram cheios de mangueiras. Existia a Rua da Mangueira, a Praça da Mangueira, a gente recebia mangas dos vizinhos, quase todos os dias. Meu pai trazia sacolas e mais sacolas de manga, do trabalho. A Base era empestada de  mangueiras. Morávamos na Tenente Dornelas, e logo fiz amizade com Jaerton Ferreira, gente boa demais. Na casa dele, todo mundo era gente boa. Pela coragem, eu sempre achei que ele era parente de Virgulino Ferreira. Um dia, logo cedo, Jaerton, me levou pra conhecer a Estação de Trem, que ficava pertinho da cerca da Base. Naquele horário, a estação era quase deserta, pois não tinha movimento. Toda estação de trem lembra filme de guerra, trazendo o fascista Hitler na imaginação. Aquela, então, parecia mais ainda, pois ficava vizinho à cerca da maior base aérea que, na Segunda Guerra Mundial, pertencia aos Estados Unidos.
 
Dentro da Base, pertinho da estação, tinha uma vistosa mangueira. Lembrei-me logo das mangueiras dos sítios do sertão. De vez em quando passava uma ronda. Soldados num Jipe, armados até os dentes. Não aguentei a lembrança do sertão e falei pro amigo:
 
 - Jaerton, vou furtar umas mangas dessas, pra gente.
 
 - Você é doido! Os caras atiram na gente. Ninguém pode entrar na Base, pulando a cerca dessa maneira. Meu irmão é cadete da AMAN e me disse, certa vez, que a ordem é atirar. Respondeu Jaerton, com muita convicção. 
 
Ele não sabia que todo menino do sertão, ou quase todos, já levou tiro furtando manga. Não deu outra. Convenci Jaerton a ser subversivo e ele topou a traquinagem. Quando a ronda passou, mais uma vez, e se distanciou, eu e ele pulamos a cerca e furtamos as mangas, as mais afetuosas, da mangueira que ficava dentro da Base Aérea. As mangas da mangueira, que ficava perto da Estação de Trem, dentro da Base Aérea, eram as melhores mangas de Parnamirim. Chupamos as mais aprazíveis e doces, ali mesmo, sentados no banco da estação vazia, como quem faz uma cena de filme de guerra, numa manhã ferruginosa, adocicada de liberdade.