Saúde

Cuidar: uma relação de amor com o outro e consigo mesmo

Psicóloga da Casa Durval Paiva (CRP 17-3166) escreve sobre suporte a criança com câncer, aos seus familiares e, não diferentemente, aos cuidadores profissionais.

Por: Laíse Santos Cabral de Oliveira
11/10/2017

A descoberta do câncer e das doenças hematológicas crônicas traz o medo da dor, do sofrimento, da mutilação e a insegurança em relação ao futuro devido ao risco de morte. Assim, se faz extremamente necessário o suporte a criança, aos seus familiares e, não diferentemente, aos cuidadores profissionais.
 
O trabalho assistencial em saúde é uma atividade profissional que envolve estar em contato íntimo com as situações mais temidas pelo ser humano: a doença, a dor, o sofrimento, o desamparo e a morte. Aqueles que cuidam de pessoas doentes sofrem um desgaste, seja ele físico ou emocional. Muitas vezes, existe o surgimento de sentimentos ambivalentes, inconsciente ou não, que causam situações estressantes, de forte tensão.  Há expressões psicológicas de medo, desespero, pânico, depressão, revolta, desconfiança, agressividade e várias outras.
 
Partindo da ideia de que cuidar é estabelecer relações e participar de modo ativo delas, pode-se dizer que a equipe da Casa Durval Paiva se propõe a isso, a cuidar dos pacientes e seus familiares. Quando o objetivo do trabalho é o cuidado, é importante ficar atento aos dois lados dessa experiência: aquele que recebe os cuidados e o cuidador. Cada um deles terá a vivência de um modo único, com as suas singularidades. Ambos são afetados a depender da intensidade e do tipo de relação que foi estabelecida.
 
A vinculação do profissional com seu paciente alimenta afetivamente tanto paciente quanto o profissional. Diante dessa afetação tida pelos cuidadores profissionais, pode-se considerar que é necessário que eles preservem um espaço para lidar internamente com o alto valor que se paga ao se aproximar do sofrimento do outro. É preciso pensar em como definir uma clara noção dos limites pessoais e responsabilidades (do profissional), relacionados a influencia que se pode ter sobre os pacientes.
 
Fatores como a história pessoal – suas vivências anteriores - e profissional do cuidador podem dar origem a tensões importantes. Lembrando que na maioria das formações dos cursos da saúde, a morte é tida como um fracasso e talvez por isso se tenha a dificuldade dos profissionais de lidar com a perda no contexto dos cuidados em saúde. Além disso, na realidade da Casa de Apoio Durval Paiva, os pacientes e familiares passam um longo tempo hospedados na instituição, o que se assemelha aos pacientes que ficam internados em hospitais por um longo período ou dos pacientes crônicos que são acompanhados por uma mesma equipe por muitos anos. O fato de ter um contato prolongado pode ser um dos fatores que intensifica a relação entre os pacientes/familiares e os profissionais.
 
A equipe frequentemente oferece apoio aos pacientes e familiares e não têm tempo e espaço para elaborar o pesar pelo sofrimento e morte de seus pacientes. A rotina de que sempre há alguém para ser atendido ou algo para fazer faz com que os profissionais deixem para entrar em contato com os seus sentimentos em um momento posterior. Às vezes, esse momento não chega, é sempre adiado, por priorizar o cuidado do outro. Cuidar é um ato de amor ao outro, mas não se pode esquecer que também deve ser um ato de amor consigo mesmo. É preciso reconhecer os limites e respeitar os sentimentos. Estar atento aos sinais que o corpo dá para evitar o surgimento de sintomas.