Opinião

José Correia Torres Neto: 2017 - um ano sem perspectivas e sem expectativas...

Engenheiro mecânico, funcionário público federal e editor de publicações se mostra cético em relação ao ano que se inicia, desdobramento das agruras registradas em 2016.

Por: José Correia Torres Neto
26/01/2017

Quando a experiência da vida nos invade, algumas de nossas crenças – ou vontade de tê-las – se esvaem. É aquele futuro que não será alcançado, são os pais que vão nos deixando lentamente, são os dias e as noites que se confundem, são as ideias e os ideais que já não têm tanta importância como antes, e até essa história de recomeço fica um tanto ultrapassada.
 
Como devo desejar um ano de 2017 repleto disso ou daquilo, se dentro de mim se instalaram um desânimo, uma depressão e um medo crescente? E vejo que não é exclusividade minha, é algo mais democrático, mais coletivo. Os primeiros dias deste ano não se distanciavam daqueles últimos dias do ano que findou. As crises apenas mudaram de data, melhor: expandi-ram-se no tempo.
 
Como pensar em um ano bom, quando temos o desequilíbrio moral, financeiro, social e político acima de todos os nossos desejos? Esse desequilíbrio em cadeia vem fragilizando os dias dos brasileiros e os tornando descrentes de quase tudo. Decisões criminosas são ditas como democráticas, palavras agressivas e preconceituosas são ditas e escritas se falseando como liberdade de expressão, um balaio e meio de indivíduos que desco-nhece a humanidade se tornando líderes, e nisso se cria um temor pelo que virá amanhã cedo ou ainda na surdina da noite.
 
Expectativa para este ano que começa eu não tenho nenhuma. Vejo apenas a possibilidade de atravessar essa poça de lama e amargar os prejuízos junto com tantos outros. Se muitos desejavam que um ano estragado acabasse para que um novo ano começasse diferente e melhor, foi ledo engano. A bancarrota parece até que é irreversível e, por mais que exista o desejo da mudança para melhor, poderá passar de mão em mão e por muito tempo.
 
Iremos partir praticamente de um zero cartesiano e traçar e construir os caminhos que nos foram interditados. A democracia brasileira, ainda em fase pueril – juntamente com os elementos que a constituem, como a so-berania, as liberdades de associação e de expressão –, andou meio baque-ada. Teremos que nos organizar, expurgar a nocividade humana e política, equilibrar os pratos dessa balança acambetada, punir justamente os que se eximiram em escolher a sociedade e preferiram apenas o futuro de seus filhos e netos e, por fim, promover a maioridade dessa mesma de-mocracia.
 
Existe um inconformismo direcionado aos diversos patamares que migra de um setor para outro em decorrência dos descasos, das aberrações mo-rais e atitudes levianas de homens e mulheres que se espalham desde a política, transpassando pela religião, sem contar com os seus sequazes que reproduzem essas atitudes como sendo absolutas verdades.
 
Os respingos desse chorume também podem atingir a produção livreira, mas também podem promover um efeito contrário, como a possibilidade de produzir o registro crítico e a difusão do momento que o país atravessa. Todos esses acontecimentos são lingotes para as forjas imediatas dos escritores – formadores de opinião – e culminarão em publicações impor-tantes para a atualidade e para o tempo futuro.
 
Uma das primeiras publicações será o livro digital Temer e Trump: expoentes do Estado de Exceção, com a transcrição da mesa-redonda homônima formada por Alex Galeno (UFRN), Cinara Maria Leite Nahra (UFRN) e Pablo Capistrano (IFRN). Essa mesa-redonda foi realizada no Espaço Cultural Café Salão Nalva Melo durante o Caravela Conversas Literárias, evento inse-rido na programação do Festival Literário de Natal (FLIN), realizado em 2016. O livro faz uma abordagem histórica, política e social sobre os fatos que levaram os dois protagonistas em questão a se transformarem nos expoentes que são hoje. A publicação sairá pelo Caravela Selo Cultural, dentro da Série Humanidades I, e será distribuído gratuitamente pela in-ternet.
 
Acredito na importância dos registros e na difusão das ideias que se fun-damentam na racionalidade e na inteligência. Essas atitudes se sobressai-rão em relação às ondas de poucas amplitudes morais e de discernimento que transitam nas diversas plataformas que se assentam em nosso cotidiano.
 
Mas, mesmo acreditando e me dispondo a participar desse processo, são diminutas, ou quase inexistentes, as minhas perspectivas para 2017. Ainda vivo em meu cotidiano as imagens destituídas de moral, respeito, humanidade, honestidade, caráter, entre outras qualidades humanas, que o ano decorrido deixou.
 
Apenas me sinto numa breve vontade de reconstruir...