Ana Paula Campos

13/01/2020
 
SÉRIE: MULHERES DE LUTA
 
LUANA TOLENTINO: INSPIRAÇÃO DE DOCÊNCIA E LUTA 
 
 
De repente fui tomada pelo pensamento de que sou a primeira e única colunista negra no Rio Grande do Norte. Fiz minhas pesquisas e confirmei. A pessoa com quem eu comentei o fato vibrou como se fosse algo positivo. De certa forma é. Não deixa de ser uma conquista a voz feminina de uma mulher negra ocupar um espaço midiático, historicamente ocupado por homens e mulheres brancos/as. Contudo, este fato exige reflexão: onde estão as outras vozes femininas negras e indígenas que não na coluna de um jornal? Essas mulheres seguem na invisibilidade social, uma vez que nem todos os sujeitos estão autorizados a falar e, assim, suas lutas não tomam notoriedade, apesar de servirem de exemplo para meninas e meninos negras/os, que encontrariam nessas mulheres representatividade e força. 
 
Além disso, considerei que a minha experiência individual, apesar de marcante, não representa o todo. Um espaço privilegiado como a coluna de um jornal deveria ser dividido com outros lugares de fala diferentes do meu. Foi pensando nisso que decidi abrir a minha coluna semanal para outras vozes, possibilitando o conhecimento de relatos de vivências e lutas dos quais até posso e devo falar, mas que não teriam o mesmo peso político da voz que ocupa o espaço. 
 
Os textos da série MULHERES DE LUTA serão publicados uma vez por mês, trazendo reflexões importantes de outras mulheres sobre o seu lugar de fala. Abrindo a série, com muito orgulho, apresento-lhes (para quem porventura ainda não a conhece), a professora, escritora e pesquisadora Luana Tolentino, de Minas Gerais. 
Excepcionalmente dessa vez, não vou escrever em forma de crônica para preservar as ideias da autora. 
 
Entrevistadora: Luana, como você percebe a relação racismo e infância no Brasil?
 
Luana Tolentino: Infelizmente, o racismo é uma marca na vida das crianças negras. Ele tem início ainda na maternidade, uma vez que, comprovadamente, as mulheres negras recebem tratamento diferenciado, seja na dificuldade de acesso aos exames básicos, seja nas doses menores de anestesia durante o parto. Ao chegar na escola, nas creches, as crianças negras também são alvo de atitudes discriminatórias. Ainda na década de 1980, a socióloga Fúlvia Rosemberg realizou uma pesquisa em creches da cidade de São Paulo. A pesquisa revelou que, nesses espaços, as crianças negras são as que levam mais tempo para serem trocadas e alimentadas. São as crianças negras que recebem menos afeto. Essa realidade ainda persiste. Nos primeiros anos da educação infantil começam os apelidos que desqualificam a pertença racial, os processos de invisibilidade de meninos e meninas negras. Como não poderia deixar de ser, tudo isso redunda em processos de baixa autoestima, insegurança e dificuldade de ter êxito escolar.
 
Entrevistadora: Como era a relação entre você, sua família e seu cabelo? Você sempre aceitou seu cabelo crespo ou passou por transição?
 
Luana Tolentino: Gostar do meu cabelo é algo muito recente. Ao longo de toda a vida nosso cabelo é visto como algo ruim - "duro", "Bombril", "cabelo de vassoura". O cabelo crespo é visto como algo que deve ser preso, escondido, raspado. Então hoje fico muito feliz em ver na televisão mulheres como a Maju Coutinho, a Taís Araújo, a Luci Ramos. Gosto muito, também, do trabalho feito pelas Youtubers negras. Todas elas têm todo um papel muito importante na construção de novos padrões de beleza. Elas têm impulsionado, inclusive, uma mudança no mercado de cosméticos, que há algum tempo tem se dedicado na fabricação de produtos destinados a cabelos crespos. Tudo isso tem contribuído para a afirmação de crianças e mulheres negras e também para a elevação da autoestima desse grupo.
 
Entrevistadora: Estamos quase em 2020, e a Lei 10.639 que torna obrigatório o ensino da História e das culturas africanas e afro-brasileira nas escolas é de 2003. Quais mudanças você percebe nos contextos escolares e sociais atualmente?
 
Luana Tolentino: Trabalhei na Educação Básica durante 10 anos – entre 2008 e 2019. Nesse período, viajei muito, visitei muitas escolas, participei de cursos de formação de professores, participei de eventos acadêmicos. Nesse sentido, são inegáveis os avanços, as conquistas promovidas pela Lei 10.639/03. Nesse cenário de avanços e conquistas, que devem ser lembramos e valorizados, ainda há muitas dificuldades, em razão das lacunas na formação dos professores para o trato da Educação das relações étnico-raciais, e também pelo fato de o Brasil ser um país extremamente racista, que ainda nega a existência do racismo. No meu entendimento, esses são os maiores entraves para o sucesso da Lei.
 
Entrevistadora: Nossa coluna é lida por mulheres, homens e adolescentes. Qual mensagem você gostaria de deixar para cada grupo, visando a uma luta feminista, antirracista e inclusiva?
 
Luana Tolentino: A luta contra o racismo, contra o machismo e contra todas as formas de discriminação deve ser uma luta de todos e todas. Só assim poderemos avançar na construção de uma democracia de fato.
 
 
Luana Tolentino é uma mulher de luta!
 
Conheça mais sobre o trabalho de Luana:
 
TOLENTINO,Luana. Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula. Belo Horizonte: Mazza edições, 2018.