Daniel Costa

12/12/2019
 
 
Brega é você
 
 
Mesa de bar é lugarzinho dos mais democráticos, da política ao futebol tudo se conversa. Todos cospem alguma coisa no prato dos assuntos, quase sempre na base do “achismo”. É fantástico. Mas, vez por outra, a rapaziada exagera na imaginação.
 
Dia desses um cara dizia que as letras da Bossa Nova são bregas. Entre uma baforada e outra argumentava que canções do tipo “eu sei que vou te amar”, de Tom Jobim e Vinícius de Morais, é de uma pieguice total, estilo Reginaldo Rossi. Ele embasava a sua opinião na grande autoridade de Lobão, o roqueiro pop star que tinha espinafrado João Gilberto num programa de televisão.
 
 Putz! Vá lá que ninguém é obrigado a beber ao som da Bossa. E sei que muitos até preferem entornar copos ouvindo Bon Jovi, RPM, Linkin Park, ou coisa do tipo. Mas arrotar, assim, no seco, que as letras da turma do Tom Jobim são bregas é demais.
 
 Acho que dizer que a namorada o trocou por outro com rimas fáceis e palavras simplórias, num arranjo musical sem maiores elaborações, pode ser chamado de brega. Não é muito recomendável, porém, tachar de brega canções como as que fazem parte do movimento Bossa Nova, que une alta cultura com produções populares, sem demonstrar eruditismo ou afetação.
 
Sim. Porque o grande barato da Bossa Nova é esse casamento perfeito entre letra simples e música trabalhada, que têm no jazz, no samba-canção e na música clássica suas maiores influências. Samba de uma nota só, por exemplo, é uma canção em que texto e música combinam feito roupa de madame. O texto justifica a música e a música justifica o texto. De maneira que não vejo como ser possível criticar esse movimento musical sem analisar a relação texto-música. Bem comparando, ninguém considera os Rolling Stones apenas pela performance de Mick Jagger, não é verdade? A coisa tem que ser vista no seu todo: Jagger + performance + Keith Richards + riffs = Stones. 
 
 E digo mais: não se pode esquecer que essa aparente simplicidade nas letras das canções bossa-novistas está intimamente vinculada ao próprio momento histórico e cultural vivenciado pelo país na época em que foi lançado, pela Odeon, o LP “Chega de Saudade”, marco inicial da Bossa. Se por um lado era preciso se contrapor aos solistas da década de 40, que enchiam as canções de penduricalhos soltando o vozeirão no estilo de Dick Farney e Johnny Alf, por outro, as letras simples e “prafrentex” refletiam o Brasil campeão da Copa do Mundo de 1958, o Brasil do desenvolvimento industrial, o Brasil da Consolidação das Leis do Trabalho. Enfim, o Brasil de Juscelino Kubitschek, o Presidente Bossa Nova.
 
Afora isso, venhamos e convenhamos ser no mínimo temeroso taxar de simplistas os textos de Vinícius de Morais, concordam? E prá não estender o movimento além de 1965, vou deixar de lado o período em que Chico Buarque e Tom Jobim escreviam letras como a de “Sabiá”, marcada por uma associação com a “Canção do Exílio”, do poeta Gonçalves Dias, e fazendo referência velada aos cantores expatriados no tempo da ditadura militar. Brega, não?
 
Como cantava João Gilberto, “bim bom bim bom, é só isso o meu baião e não tem mais nada não”.