Cefas Carvalho

11/12/2019
 
A era da nostalgia
 
Faço parte de um grupo no Facebook sobre a Memória de São Paulo.Imagens do passado, coisas maravilhosas para quem nasceu e morou lá em curto e intenso  período nos anos 90, como eu. O chato do grupo é que a qualquer foto antiga postada surgem dezenas de comentários "Antigamente é que era bom", "Que saudades dessa época", "Hoje está tudo pior" e por aí vai.
 
Também acompanho postagens de amigos sobre a Natal antiga, fotos e informações muito bacanas. Mas... comentários na mesma natureza: "Natal antigamente era maravilhosa, hoje está um lixo", "Ai que saudade daquela Natal de antes", "Natal piorou muito".
 
Escrevo sobre isso há tempos nas redes sociais e converso com frequência com amigos e amigas: Vivemos uma espécie de "era da nostalgia". Para boa parte das pessoas o passado, o "antigamente" era bom, não o presente.
 
Boa parte destas pessoas parece confundir a experiência pessoal com a questão coletiva e;o global. Claro que a fase em que éramos adolescentes, sem preocupações (ou com poucas), saúde e hormônios a mil e um Mundo a desbravar, é marcante e inesquecível. 
 
Mas, não quer dizer que o Mundo era melhor porque éramos jovens naquela época, como parte da minha geração, entre os 45/55 quer parecer ou imaginar.
 
Principalmente quando o "antigamente" era cercado por privilégios, como ser ser branco/a, classe-média alta, por exemplo.
 
Porém, a intensidade da nostalgia mostrada pela minha geração quarentona/cinquentona me espanta um pouco. 
 
Compreender a dinâmica do Mundo e da sociedade é uma maneira de viver melhor. Parte da moçada (ops) parece não entender isso e se prendeu às músicas, filmes, livros, modus operandi, visão de mundo dos anos 80 e 90. 
 
Neste balaio de nostalgia está boa parte dos preconceitos inerentes aqueles tempos. Tempos em que "negro de alma branca" era uma frase corriqueira e que a população LGBT tinha que se trancar nos armários.
 
Ter nostalgia de preconceitos é mais do que insensatez, é marchar contra a evolução da sociedade, que, apesar dos retrocessos e dos (des)governos segue em frente rumo à equidade social e sexual. 
 
Nostalgia é bom quando pessoal e limitada às impressões particulares sobre cultura e arte. Quando aplicada à não-compreensão do Mundo, torna-se algo anacrônico.
Já escrevi isso outras vezes e peço descullás pela repetição, mas é necessário citar Belchior: "É voc~e que ama  o passado e que não v~e, que o novo sempre vem"