Ana Paula Campos

09/12/2019
 
CACAU, ANGELA E BRIGITTE versus MASCULINIDADE FRÁGIL
 
 
Na quarta-feira, dia 27 de novembro de 2019, fui surpreendida com vários vídeos da atriz Cacau Protásio desabafando acerca de sua angústia sobre os ataques racistas que sofreu nas redes sociais dias após a gravação de cenas do seu filme em um quartel dos bombeiros no centro do Rio de Janeiro. Em um desses vídeos, Cacau relata: “Ele espalhou o vídeo com áudio me xingando de negra, gorda, filha da puta, aquela cambada de viado.”
 
Durante essa mesma semana, o atual (ex) presidente da Fundação Palmares também disparou frases do tipo: “Mulher preta que é feminista, lulista e afromimizenta não pode reclamar da ‘solidão da mulher negra’. Ninguém é louco de encarar!”, e, ainda, sobre a intelectual Angela Davis, descrita nas seguintes palavras: “Uma negra nojenta, baranga e ignorante veio dos EUA para falar mal do Bolsonaro. De saco cheio de merda esquerdista!”
 
E por falar no presidente, não podemos deixar de relembrar seu comentário: “Não humilha, cara. Kkkkk”, em agosto deste mesmo ano, em uma postagem do Facebook de um de seus seguidores que comparava as fotos de Brigitte, primeira dama da França com 66 anos e Michelle, esposa de Bolsonaro, com 37 anos.
 
O que todos esses homens têm em comum? Eles evidenciam a fragilidade da masculinidade dos homens no Brasil, geralmente, de direita. Esse macho alfa aprendeu, tanto pela via social quanto culturalmente, que, para ser respeitado entres os seus, ele deve sempre estar acompanhado de mulheres brancas, magras e mais novas. Preferencialmente não mais bem-sucedidas que ele, com formação acadêmica inferior, para que esta seja a perfeita companheira submissa.
 
A insegurança é tanta que, quando esses homens se veem confrontados por mulheres intelectuais, independentes e empoderadas, fora dos padrões definidos por eles, assumindo lugares de destaque nos espaços sociais, acadêmicos e midiáticos, a falta de respaldo para argumentar é tão brochante que sua primeira reação é atacar, em nós, aspectos como cor, idade, físico ou orientação sexual. 
 
Tadinhos... deve ser realmente doloroso ver uma mulher negra e gorda adentrando um espaço sexista e machista, sendo ela destaque no mundo midiático. Imaginem o desespero deles ao saber que pisa em solo brasileiro uma mulher negra, militante, intelectual e que veio pra desestabilizar toda essa estrutura dominada por homens, brancos e de elite que insistem em nos silenciar. Igualmente confuso é saber que um homem jovem, bonito e poderoso não se sente intimidado diante das experiências e conhecimentos de uma encantadora professora de literatura.
 
É, querida Sojourner Truth, estamos mesmo vivendo momentos de muita algazarra. Com tanta mulher fora dos padrões, assumindo lugares de poder e de destaque, eu também acho que “o homem branco vai entrar na linha rapidinho”, e quando digo isto me refiro aos “negros” capitães do mato, também.
 
Diante do contexto, rememoro seu célebre discurso: “Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo por sua própria conta, todas estas mulheres aqui devem ser capazes de consertá-lo, colocando-o do jeito certo novamente. E agora que elas estão exigindo fazer isso, é melhor que os homens as deixem fazer o que elas querem.”
 
Somos negras, gordas, homossexuais e o tempo está passando... para nós e pra vocês. A diferença é que nós estamos bem com isto, e vocês?!