Ana Carolina Monte Procópio

02/12/2019
 
 
 
CAMINHAR, DECIDIR!
 
 
 
Caminhante, são apenas os teus passos
O caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
O caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho
E ao voltar a vista atrás
Se vê a senda que nunca
Se há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
Somente rastros no mar.
 
ANTÔNIO MACHADO
 
 
Entre as tantas possibilidades que a vida oferece, surge uma angústia profundamente humana: que caminho seguir? Porque uma via, no mais das vezes, exclui todas as outras possíveis. O que motiva outra questão permanente e irrespondível: e se houvesse sido outra a escolha? Mais uma vez, é o privilégio de se ter consciência que gera tal questionamento.
 
Essa dúvida provavelmente já passou na mente de quase todas as pessoas. Há sempre um “se” – normalmente muitos – na história de cada um. E se fosse outra minha profissão? E outra minha cidade? E outro o meu amor? E outras as minhas decisões?
 
O bonito da vida é que não há resposta para nenhuma dessas perguntas. A única realidade que de fato existe é o momento presente com as escolhas que foram feitas por cada um e que, a seu tempo, foram certamente as que pareceram as melhores. 
 
Só que somos impermanência, movimento, dinamismo. Nada, ninguém permanece igual o tempo inteiro. A natureza nos mostra isso; tudo no universo é movimento, ciclo, renovação, vida e morte, começo e fim – e recomeço.
 
E como conciliar esses dois aspectos aparentemente antagônicos? Asas ou raízes? Decisões e impermanência? Quanto de cada em cada ser?
 
O poema de Antonio Machado, citado acima, aborda esse aspecto da dinâmica da vida. “Não há caminho, o caminho se faz ao andar”. E não há volta. Pode haver outros caminhos, mas serão sempre novos. Os caminhos do tempo, como os rios, não correm para trás. 
 
E é assim, passo a passo, que se constrói uma história e, ao se voltar o olhar para trás, vai se ver o caminho por onde nunca mais se irá passar. Nem o caminho escolhido nem todos os outros que foram preteridos. Não há como se voltar a nenhum deles e refazê-los, ou reescrever a história optando por outro(s).
 
“Não há caminho, somente rastros no mar.” A beleza estética e simbólica dessa analogia é algo que somente os poetas – essa classe especial de seres humanos – conseguem conceber. Os caminhos são como rastros no mar. Caminhante, faça você mesmo o seu caminho, que é e será unicamente o seu próprio. 
 
Compreender essa realidade traz uma enorme responsabilidade, pelas conseqüências de cada passo dado e pelo dever de assumi-las. Como disse o grande Guimarães Rosa, “o que a vida exige da gente é coragem”. E muita.
 
Garantias? Não há. Em relação a nada. Nem mesmo a de estar vivo no instante seguinte. “Tudo o que somos é poeira ao vento, todas as coisas são poeira ao vento” , já diz a antiga canção Dust in the Wind, uma verdadeira reflexão sobre a existência, música que está presente em todas as minhas listas e em muitos dos meus momentos vividos (olhe o rock aí novamente!). 
 
E no meio desse turbilhão que é viver a vida tendo que dar cada passo sem mapa nem guia; sem roteiro pré-estabelecido, o difícil mesmo é achar o equilíbrio entre os valores a ponderar. E aí é muito válida a consideração trazida por Kafka, segundo a qual “Não somos culpados só porque comemos da árvore do conhecimento, mas também porque não comemos da árvore da vida.”.  (Franz Kafka). Nossa omissão. Talvez o medo do ser humano seja ainda maior quanto a comer da árvore da vida que mesmo a do conhecimento. Viver com responsabilidade, coragem e ao mesmo tempo em liberdade é um desafio grande demais para a segurança em que costumamos querer nos apoiar. Segurança, entretanto, que na verdade não existe. Poeira ao vento...
 
“Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, mas o mais triste é ter mesmo que escolher.”
(Do livro E se Obama fosse africano - Mia Couto)
 
Há sempre uma escolha a ser feita. Contudo, o fato de escolher deve ser celebrado sobre toda angústia que porventura causar, porque o fato de se decidir por um caminho não deve ser visto como a impossibilidade de todas as vidas não vividas, mas como a possibilidade de realização da vida escolhida. Sem esquecer, entretanto, que tudo está, não é, que a natureza – bem como nós – se move na impermanência. 
 
Para encerrar, são precisas as palavras deste encantador trecho do pensamento de Cora Coralina:  
 
“Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir quando rir ou chorar,ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é decidir.”