Ana Paula Campos

02/12/2019
 
Quem sofre com o racismo?
 
Sou uma negra privilegiada. Não sou rica, mas cresci sobre uma estrutura que me gerou algumas possibilidades e, de certa forma, me protegeu. Considerar isso é importante porque, quando falamos de racismo, algumas pessoas ainda acreditam que suas experiências individuais representam o todo.
 
Trago esta reflexão agora porque estava conversando com um jovem negro e ele me relatou que precisou cortar seu cabelo black power, do qual se orgulhava tanto, para poder conseguir um emprego. Disse-me ainda que apenas este ano (o relato aconteceu em novembro último), já fora abordado pela polícia na rua doze vezes e, em apenas duas vezes desse total, ele não apanhou.
 
Esse jovem é um estudante que trabalha para ajudar na renda da sua família. Ao ouvir seu relato, fiquei surpresa e sem saber direito o que dizer para ele. Que negros e negras são abordados de forma violenta todos os dias no Brasil, não é surpresa para ninguém. Pesquisas revelam que o sistema carcerário é composto por muito mais de 50% de negros. Acredito que aqui mora o “x” da questão: números...
 
O racismo estrutural naturaliza a coisas e, a partir de então, passamos a nos acostumar com os dados que nos são apresentados todos os dias. Pensamos em números, mas números não têm nome de gente. Como o rapaz em questão é um conhecido próximo, sua história de vida me incomodou profundamente. Não que a situação de outros/as negros/as não me causem indignação. Combato isso todos os dias! Todavia, escrevo hoje aqui alertando para a necessidade de estarmos em constante reflexão. Precisamos estar cientes dos nossos privilégios. 
 
Eu, na condição de mulher negra privilegiada, sofri com o racismo, mas tenho consciência de que, em muitos momentos, essa violência foi tão velada que passou despercebida. O que eu vivi não pode servir de parâmetro, tampouco ser comparado ao que vivem meninas e meninos negras e negras da periferia diariamente.
 
Aqui entra a importância de pensarmos uma sociedade na perspectiva da interseccionalidade. Apenas o recorte de raça não é suficiente para discutirmos o racismo. As pautas são diferentes. Precisamos pensar na perspectiva de raça, gênero e classe se quisermos transformar o Brasil em um país que pensa suas ações com base na equidade social. Evoco, portanto, a grande Angela Davis, ao afirmar: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.” Pretendo, dessa forma, desestabilizar essa estrutura racista, alienante e desumana. 
 
Embora os números sejam alarmantes, representativos e fundamentais para a nossa luta, não deixemos de pensar nas urgências e necessidades de cada indivíduo.