Andrea Nogueira

23/11/2019
 
Consciência preta e branca
 
 
Muitas pessoas, quando lembram ou fazem alguma referencia ao período de escravidão negra no Brasil, tendem a achar que aqueles homens e mulheres eram todos africanos. De fato, muitos africanos, principalmente de Angola, foram trazidos ao país tropical como simples mercadoria para serem utilizados até o limite de suas forças e saúde física e mental. Assim poderiam viabilizar o crescimento de homens que não tinham o azar de nascer com a pele escura.
 
O que muitos esquecem é que os africanos podem até ter iniciado a população de escravos negros em nosso país, mas depois vieram seus filhos, netos, bisnetos... o que importa refletir é que a escravidão esteve bem perto. Muito perto. Esteve debaixo dos narizes de um povo que se achava superior apenas pela diferenciação da cor da pele e que, aos poucos, deixaram, de escravizar estrangeiros para escravizarem pessoas de igual nacionalidade. Já não se tratava, portanto, de dominação territorial ou força nacional, tratava-se de desumanização movida por preconceito.
 
Notadamente, os negros eram mais resistentes e fortes fisicamente do que os brancos que os escravizavam. Os negros tinham a força e o quantitativo. Já os brancos tinham as armas e o poder do estado ao seu favor. E como é intrigante reconhecer que numa fazenda, quinhentos escravos negros eram dominados por 15 homens brancos... Mas por trás daqueles homens brancos havia o Estado...
 
Alguns envolvidos naquele contexto de submissão foram capazes de reconhecer que não mereciam o tratamento da escravidão. Passaram a questionar todo aquele cenário de tortura. E dentre os escravos questionadores, havia alguém chamado Zumbi que se destacou dentre os trinta mil negros que viviam num quilombo (comunidade formada por escravos negros que haviam escapado das fazendas, prisões e senzalas brasileiras).
 
No período em que Zumbi governou o quilombo, a resistência à coroa portuguesa foi reforçada levando-o a ser capturado, morto e decapitado. Sua cabeça foi exposta em praça pública para convencer os demais de que ele era um mero mortal que desafiou a coroa. Zumbi pregava a liberdade de todos os negros e a não submissão à Portugal. A data da sua morte motivou no Brasil um dia de comemoração e reflexão chamado Dia da Consciência Negra.
 
Em meio às lutas contra a escravidão, a população negra podia contar com algumas pessoas brancas igualmente inconformadas com todo aquele cenário de tortura humana. Uma dessas pessoas chamava-se Maria Tomásia Figueira Lima. Esta mulher fundou no estado do Ceará, em 1882, a Sociedade Abolicionista das Senhoras Libertadoras. O objetivo da instituição era alforriar escravos, pressionar o governo a abolir a escravidão e conscientizar o maior número de pessoas para este fato. Brancos falando para brancos e negros, explicando que a escravidão era errada.
 
No ano de 1884, a Assembleia Legislativa provincial decretou o fim da escravidão no Ceará, a primeira a fazê-lo no país. Obviamente, não foi Maria Tomásia a responsável pelo fim da escravidão no seu estado. Mas ela somou numa luta aparentemente alheia.
 
Ainda hoje é possível reconhecer pessoas combatendo a violação de direitos alheios. Pessoas que, aparentemente, não teriam nada haver com a luta, já que não seriam beneficiárias diretas dos direitos porventura alcançados.
 
Hodiernamente, numa sociedade onde muitos esquecem ou simplesmente desconsideram tudo o que a escravidão é capaz de causar ao Brasil e ao mundo, é preciso refletir, somar e não relaxar diante do menor sinal de desigualdade e submissão. Simone de Beauvoir sempre se referia às mulheres nos seus momentos de luta por direitos, mas parafraseando-a e incluindo a escravidão negra nesse contexto histórico de luta, importa lembrar que “basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos dos negros sejam questionados”. É preciso vigiar. Sempre.