Renisse Ordine

21/11/2019
 
Entrevista: com José Almeida Júnior,  autor de “O homem que odiava Machado de Assis"
 
Nesta semana em que comemoramos o Dia da Consciência Negra, nada melhor do que conhecermos o escritor José Almeida Júnior, autor do livro “O homem que odiava Machado de Assis”, um dos mais vendidos e comentados do ano de 2019. Pois, foi o primeiro livro em que o escritor esta retratado na capa, como ele realmente é: um homem negro.
 
 Além, do enredo que traz uma ficção bem desenvolvida, em uma narrativa sobre o dualismo existente entre o escritor e Pedro Junqueira, desde a infância no Morro do Livramento. 
 
Machado de Assis foi um homem negro que nasceu na favela. Fato que os intelectuais literatos sempre negaram. Pelos motivos que conhecemos sobre a questão da desvalorização do negro na sociedade.
 
Quem é José Almeida Júnior?
 
Sou natural de Mossoró, moro em Brasília há 12 anos, onde trabalho como defensor público. Desde 2012, comecei a escrever ficção. Meu primeiro romance escrito foi “O Homem que Odiava Machado de Assis”, sendo que a primeira versão foi concluída em 2015. Em seguida, escrevi “Última Hora”, que foi concluído durante o prazo de inscrição do Prêmio Sesc de Literatura de 2017. O livro foi vencedor na categoria romance. Com a repercussão do primeiro livro publicado, voltei a trabalhar em “O Homem que Odiava Machado de Assis”, que saiu em junho de 2019, pela Editora Faro.
 
Sobre os seus livros, você constrói enredos sobre personagens reais, numa mistura de ficção e realidade. No primeiro, Ultima hora, que lhe rendeu o Prêmio Sesc Literatura em 2017, você abordou sobre uma importante batalha de impressas que houve no Brasil, a época de Getúlio Vargas; e atualmente, O Homem que odiava Machado de Assis. Esse é o estilo literário que você pretende seguir, ou os seus leitores, podem esperar por alguma mudança?
 
O romance histórico é um gênero que eu me sinto muito à vontade para escrever, porque eu leio muito esse tipo de literatura. A ficção é uma ferramenta muito eficaz de revisitar a história, principalmente pela ótica das pessoas comuns. O livro que atualmente estou escrevendo também é histórico, tem como pano de fundo o turbilhão que o Brasil vivia no período pré-golpe militar de 1964. Mas quero fazer outras experimentações. Já pensei em escrever um romance de não-ficção e também uma distopia.
 
No Brasil, Machado de Assis continua a ser uma grande referência para a literatura. Você acha que o enredo de “O homem que odiava Machado de Assis” de alguma maneira possa vir a quebrar o encanto que alguns leitores possam ter sobre ele? Mesmo se tratando de uma ficção?
 
Considero Machado de Assis o nosso escritor maior. Produziu por muitos anos, escrevendo romances, contos, crônicas e poesias. “O Homem que odiava Machado de Assis”, no fundo, é uma homenagem minha ao nosso grande mestre. Desde o início, meu romance deixa claro que o narrador é inimigo de Machado de Assis e coloca a sua visão sobre o escritor, muitas vezes baseada no preconceito racial. O retorno que tenho recebido dos leitores é no sentido de eles voltaram a ler Machado de Assis depois do meu livro. 
 
Como é o seu trabalho de pesquisa? Como você define os seus temas/personagens de estudo?
 
Antes de começar a escrever, eu faço uma longa pesquisa histórica sobre o tema que eu quero retratar no meu livro. A maior parte da pesquisa não é utilizada no romance, mas serve para que eu me ambiente no período histórico. Ainda antes de iniciar a escrita, eu faço um esboço dos principais personagens de ficção e como eles vão se relacionar com as personalidades que existiram. Mas eu não tenho um método sobre temas e personagens que vou tratar. Geralmente parte de um interesse particular que eu vou aprofundando à medida que vou pesquisando.
 
Qual a imagem que você tem de Machado de Assis? Diante das pesquisas e leituras que você realizou. 
 
Como falei, acho Machado de Assis o escritor em língua portuguesa mais completo. A maioria das pessoas só conhece os romances, mas ele teve uma longa produção em contos e crônicas. Muitas pessoas criticam uma suporta ausência de militância política de Machado. Mas é por pura falta de conhecimento. O Brasil do Segundo Reinado, com todas as suas contradições, inclusive a escravidão, está na obra machadiana. Mas exige uma leitura atenta do leitor.
 
Um ponto que me chamou à atenção foi a capa do livro, em mostrar Machado de Assis, como ele realmente era: um homem negro. Por que essa representação é importante para a literatura e a sociedade brasileira? 
 
A campanha Machado de Assis Real veio num momento muito importante. O Brasil sempre foi racista e tentou esconder essa condição com o mito da democracia racial. Depois de alguns anos de avanços, com reparações históricas, o país começa a retroceder na questão racial. A campanha Machado de Assis Real, além de fazer uma correção histórica, é importante para a questão da representação dos negros. Embora os livros escolares tragam Machado de Assis como um mestiço do Morro do Livramento, poucos o identificam como negro em razão das fotos embranquecidas do escritor.
 
Se Machado de Assis revivesse nesse cenário politico e social em que vivemos. Como seriam os seus escritos? Será que ele teria coragem de continuar observando as pessoas para poderem retrata-las ou partiria direto para a ficção? 
 
Acho que Machado de Assis nos dias de hoje teria o mesmo olhar a atento que teve para retratar a sociedade brasileira do século XIX. Continuaria usando a sua ironia fina para descortinar os problemas atuais.
 
Para a construção do enredo, você aborda questões muito relevantes para a nossa história, como é o caso do processo da Abolição da escravidão. Durante a narrativa, percebe-se o quanto os políticos lutavam alguns a favor e outros contra a libertação dos escravos. Pode-se dizer que mudamos após um século, ou que a nossa sociedade ainda é engessada nos mesmos princípios? Digo na questão comportamental dos políticos.
 
 Certamente o sistema político evoluiu desde então, embora ainda tenhamos muitos problemas. Mas algumas posturas permanecem parecidas, principalmente quanto à questão racial. Hoje uma parte da sociedade e da classe política tende a se negar os efeitos da escravidão. Por isso, é importante sempre revisitar a história.
 
Após todos os seus estudos sobre a pessoa de Machado de Assis e a sua literatura. O que você concluiu sobre Capitu. Ela traiu ou não Bentinho? Ou você ainda não chegou a nenhuma conclusão, como a maioria de nós, leitores. 
 
O principal foco de Dom Casmurro não é o adultério, mas o ciúme. Nunca saberemos a resposta para essa pergunta, porque o romance foi narrado por Bentinho de maneira absolutamente parcial. Mas eu tendo a acreditar que não houve traição e um dos principais argumentos é a forma que a história é contada. Bentinho era advogado e usava da retórica para desviar do assunto. Mais de 70% do livro trata da infância dele com Capitu, sempre tentando representá-la como uma mulher não confiável. Nos pouco mais de 20% finais do romance, Betinho escreve sobre a fase adulta, mas não consegue apresentar uma única prova da traição. Apenas uma suposta aparência física de seu filho com Escobar. A partir daí, chegue à conclusão de que não houve adultério.
 
Como a sua literatura contribui para a transformação da sociedade?
 
Eu não tenho nenhuma pretensão de que meus livros transformem a sociedade. Mas acho que a literatura em geral pode ser transformadora de uma realidade. Então, se meus livros puderem contribuir para que as pessoas ponham a literatura como um hábito nas suas vidas, eu já me considero vitorioso.
 
Para finalizar. Por que ler “O homem que odiava Machado de Assis”?
 
“O homem que odiava Machado de Assis” tem várias camadas de leituras. Pode ser uma história sobre um triângulo amoroso, mas pode também ser um livro sobre a vida de Machado de Assis, sobre a escravidão e os temas que permeavam a sociedade brasileira do século XIX. Então, acho que é um livro que pode ser lido sem grandes pretensões, mas também por quem quer conhecer mais sobre a história do Brasil e sobre a vida de nosso escritor maior.