Ana Carolina Monte Procópio

18/11/2019
 
 
FALANDO DE AMOR
 
 
 
 
Mas levo esse amor
com zelo de quem leva o andor
eu velo pelo meu amor 
que sonha
 
 - AMOR BARATO
 
 
Te encontro com certeza
talvez no tempo da delicadeza
onde não diremos nada,
nada aconteceu
apenas seguirei como um encantado
ao lado teu
 
 - TODO SENTIMENTO
Chico Buarque (porque eles amam)
 
Para meus pais, Múcio e Graça, 
que nesta semana
completam 50 anos de casados.
 
Esse é, talvez, o tema mais difícil de falar a respeito. Porque é atemporal, universal, absoluto. O Amor simplesmente é. Como muito bem disse Mário de Andrade, Amar é verbo intransitivo. E é realmente. Sem complementos, sem predicativos do sujeito ou do objeto. Basta o verbo. O verbo Amar.
 
Difícil não ser piegas, romântico ou repetitivo ao se falar de amor. Há milênios que se fala de amor e certamente não há nada de novo sob o sol; nada que não tenha sido já sentido e dito. Há o risco de enveredar pelo ridículo também. Mas, segundo o grande poeta Fernando Pessoa, todas as cartas de amor são ridículas, senão não seriam cartas de amor. Aplica-se a este texto, pois, e desde já peço escusas pela repetição, ridículo, ou seja o que for. Senão não estaríamos falando de amor. 
 
Os gregos antigos identificaram 7 formas de amor, que são, rapidamente: o amor universal, o que seria o ápice do amor, o sentimento por todo o mundo, por toda a Vida, muito ligado à espiritualidade – Ágape; o sentimento romântico, sensual e apaixonado – Eros; o amor-amizade, desapaixonado, feito de compreensão e confiança – Philia; o amor familiar, dos pais para os filhos, incondicional e afetuoso – Storge; amor alegre, vivido em relacionamentos casuais, sem compromisso, divertidos, mas sem vínculos – Ludus; relação de natureza prática  baseada no senso de dever e em objetivos compartilhados, visando fazer a coisa certa – Pragma; amor-próprio, autoestima – Philautia. 
Com todo o respeito ao pensamento racional e analítico dos gregos, sempre cuidadosos ao buscar entender e explicar o mundo, não estou certa de que o amor pode ser assim classificado, catalogado e colocado em caixinhas guardadas em estantes fixas. Também não estou certa de que todas as formas acima se referem ao sentido do amor que vincula as pessoas. Parece ser mais uma catalogação de maneiras diferentes de se relacionar com os outros e consigo mesmo.
 
O amor, numa perspectiva coletiva, é o que move as pessoas na busca de um mundo mais irmanado, mais acolhedor e solidário. O amor dos que enxergam uns nos outros seres iguais em dignidade, em divindade, em essência. Não à toa, Jesus nos legou o importante mandamento de amar ao próximo como a si mesmo. Veja-se que o Filho falou em Amar, o que é muito mais do que simplesmente respeitar, porque fala do sentimento e não apenas do senso de equidade. Amar ao próximo significa saber-se parte dele e saber que ambos, o ser e o outro, são parte da mesma teia de Vida que inclui todos e cada um. 
 
Um belo ensinamento budista ilustra tal sentimento, expresso no seguinte diálogo entre um discípulo e um mestre: 
 
O discípulo indaga: - Mestre, como devemos tratar os outros?
 
Ao que o Mestre responde: - Não existem outros.
 
Mais didático impossível. Não existem outros porque somos todos um. Parece metafísico, mas é muito real. Essa é a dimensão coletiva do amor, o de sentir-se parte de um mesmo todo. É sentir rompido o sentimento de separação que se percebe desde que se nasce e que se aprofunda à medida em que se ganha consciência própria. Só o amor tem esse poder de nos tirar do eu-sozinho para nos inserir no mundo como partícipes, atores.  
 
Outro não é o pensamento do grande Oscar Wilde em sua obra visceral chamada De Profundis, escrita quando ele esteve preso. Este livro, autobiográfico, reflexivo, filosófico traz muitas considerações sobre a natureza humana, caráter, perdão e, como não poderia deixar de ser, sobre o amor. “Mas embora não tenha jamais dito aos homens ‘Vivam para os outros’, Cristo nos fez entender que não há a menor diferença entre a vida do outro e a nossa própria vida. Por esse meio, ele ampliou a personalidade do homem, dando-lhe as dimensões de um Titã.” . O amor é o divino que nos habita. 
 
Agora, porém, é do amor entre dois seres que se escolhem, que se encantam, que se encontram, que quero falar. O chamado amor maduro, o que é vivido por dois seres inteiros que não se completam, porque ninguém é uma metade, mas que se impulsionam, se doam, se unem de forma consciente e profunda, dividindo afetos, desejos, opiniões, pensamentos, afinidades e companheirismo. Como dizia o inesquecível Belchior em uma dentre tantas músicas-presente que ele deixou, “o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual”. Sim, muito mais profundo. Amor não pode ser confundido com o tumulto da paixão, a agonia do desejo ou a acomodação do conformismo. Porque amar é deixar que a Vida fale mais alto, é ouvir a canção do Universo, é sentir o mundo pulsar dentro de si, é o que aquece o coração e dá sentido à vida, a qual não encontra razão no isolamento, mas apenas no contato e no convívio humanos.
 
O amor tem muito de doar. Dar de si, dar o seu melhor, dar como ato de vontade para o ser amado, para sua felicidade, para seu alento e crescimento. O poetinha Vinicius de Moraes já dizia: “quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu, porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu...”. De fato, a vida e o amor só se dão pra quem se deu. Pra quem deu de si próprio, de sua intensidade, sua atenção, sua alegria, seu riso, sua inspiração, seu sentimento para o outro. 
 
Gibran Khalil Gibran, no seu livro O Profeta, uma obra-prima de humanismo e beleza, tem dois textos belíssimos que falam bem deste tema. Um é sobre a dádiva, o outro é sobre o amor. No texto sobre a dádiva – um dos escritos mais bonitos que tive o prazer de ler – diz o poeta: “Dais muito pouco quando dais o que vos pertence. Só quando vos dais de vós próprios é que estais verdadeiramente a dar.” Esse é o doar próprio do amor. Na fala sobre o amor, Gibran retoma a associação entre amar e dar-se: “O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio. O amor não possui, nem se deixa possuir. Pois o amor basta-se a si mesmo. (...) E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso. O amor não tem outro desejo senão o de atingir sua plenitude.” 
 
Tantas poesias, músicas, livros, obras de arte falaram de amor. Impossível escolher os mais belos poemas, as mais belas palavras. Pablo Neruda, no seu livro Os Versos do Capitão, traz alguns dos mais tocantes versos sobre amor que já li. Drummond, Florbela Espanca, Afonso Romano de Sant’anna, Cecília Meirelles, Hilda Hilst, Rilke, Shakespeare, Mia Couto, Camões também falam de amor com a profundidade que só os que o experimentaram profundamente conhecem. E outras centenas de autoras e autores deveriam ser lembrados. Mas o texto não teria fim...
 
Amor é tema inesgotável. Nem falarei do amor líquido, mal do nosso tempo pós-moderno, quando tudo se dissolve e nada parece durar; daria outro texto... O fato é que o sentimento amoroso é muito mais e maior que todas as muitas palavras que já se falaram sobre ele. 
 
Que Chico Buarque, novamente, fale de amor:
 
“Se eu pudesse, por um dia, 
Esse amor, essa alegria
Eu te juro, te daria,
Se pudesse, esse amor todo dia”