Ana Paula Campos

18/11/2019
 
CARTA À MINHA FILHA
 
 
Após ler alguns livros da grande Maya Angelou e em especial Carta a minha filha, senti um enorme alívio. Sua escrita honesta e humana sobre sua experiência enquanto mulher e mãe fizeram-me sentir representada. Já estava mais do que na hora de alguém falar sobre a maternidade sem ser pelo viés de um romantismo cruel que impôs historicamente que toda mulher naturalmente sonha em ser mãe, e sendo, está sempre disposta, disponível, não cometendo erros jamais.
 
Com Maya compreendi que, como mulher, tenho sonhos que não incluem a minha filha. Posso ter uma carreira, viajar, trabalhar dois turnos e deixá-la aos cuidados de uma escola integral e isso não diminui o amor que sinto por ela. Com Maya reconheci que tenho desejos e o direito de me relacionar com quem eu quiser, quantas vezes eu quiser e isso não faz de mim uma mãe promiscua. Em lágrimas aceitei que não fui menos mãe quando tive medo e fraquejei diante da cirurgia no fêmur da minha filha, vendo-a meses em uma cadeira de rodas sendo privada de correr e pular corda. Caí em depressão e fiz/disse coisas das quais não me orgulho, mas tudo bem... eu estava sendo absolutamente humana.
 
Algumas pessoas dizem, carinhosamente, que sou uma mãe guerreira, mas a verdade é que não sou. Acerto e erro todos os dias e sigo aprendendo a ser mãe.
 
Quando descobri que estava grávida, declarei algumas vezes, ávida de alegria, que teria uma filha pretinha com cabelos pixaim.  Mas logo fui trazida de volta à realidade de viver em um país racista quando me disseram: “mulher, não diga isto com sua filha, não!” Juro que naquele momento desejei de todo meu coração não ter uma filha negra. Só de imaginar o que ela viria a sofrer eu me acovardei e desisti da minha cor.
 
Giovana nasceu branca, mas por ironia do destino tive que, além de aprender a ser mãe, aprender a ser mãe de uma menina surda. Nossas batalhas são diárias e eu sou daquelas que compra a briga dela/com ela. Quem me conhece, sabe! Mas admito que sou acometida pelo cansaço, pela dor, pelo medo, pela insegurança e pelo desespero todos os dias. Foi tão reconfortante saber que Maya também pensou em dar cabo da própria vida. Afinal, não estou louca... não estou só.
 
Meu pai sempre me disse que eu só compreenderia algumas coisas quando fosse mãe e eu aprendi. Aprendi que a responsabilidade de cuidar dos filhos não é só da mãe. Aprendi que nem todas as mulheres nascem com o desejo de ser mãe. Aprendi que ser mãe não é um dom natural e divino, ao contrário, é um exercício diário. 
Se você que me lê agora é mãe, perdoe-se. Não se sinta culpada pelos seus erros. Viva e não esqueça de ser a mulher da sua vida enquanto é a mãe de alguém.