Ana Paula Campos

11/11/2019
 
BRASIL ACIMA DE TUDO, DEUS ACIMA DE... NÃO, ESPERA!
 
O atual presidente do Brasil (que não me representa) foi eleito com esse slogan: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.” Esta expressão por si só já evidencia o caráter de hegemonia cultural presente no nosso país, legitimado por Bolsonaro.
 
Quando a classe dominante impõe sua visão de mundo como uma norma cultural, universal e válida, como natural e benéfica para todos, agride ferozmente todos àqueles que pensam diferentemente e seguem uma religião diversa do cristianismo. Vivemos numa democracia (atualmente é questionável) e por esta razão, devemos alimentar o nosso perfil contestador, mas por que isso apenas se aplica às religiões de matrizes africanas?
 
Se pensarmos em termos históricos a ideia de monoteísmo é muito recente. O hinduísmo, por exemplo, é uma das práticas religiosa mais antigas do mundo com seus mais de 33 milhões de deuses/as. Os/as deuses/as da Grécia e do Egito, estudados/as nas escolas regulares, são vistos com respeito e admiração, ainda que na perspectiva de mitos. A imagem de Afrodite é conhecida e venerada no mundo todo como uma mulher realmente bela, mas porque a orixá Oxum não é respeitada da mesma forma, uma vez que ambas são as divindades do amor e da beleza?
Poseidon com seu tridente impõe um ar de superioridade e poder, mas o mesmo não pode ser dito de Exu com o mesmo artefato, que ao contrário, impõe medo sendo frequentemente associado ao demônio na visão do cristianismo. Por que conseguimos ver com distanciamento e sem temor os deuses hindus, gregos e egípcios, mas os orixás do candomblé, da umbanda e das demais expressões religiosas de matrizes africanas, não? 
 
A resposta para esta pergunta está na História escravagista brasileira. A elite e o clero consideravam os aglomerados de negros/as como focos de rebeliões descrevendo-os/as como “negros perigosos promovendo desordem”, conforme descrito no livro Cidades Negras. O medo propagado entre todos, provinha muito mais do risco de perder seus privilégios brancos do que propriamente das manifestações de fé que divergiam do cristianismo, descritas ainda como “superstições que aprenderam em suas terras”. 
 
Admiramos a cultura e a filosofia grega que pautam nossas sociedades, pintamos os egípcios de brancos nos livros didáticos e nos filmes e com isso muitos nem se lembram que o Egito fica situado no continente africano.  
 
O princípio da doutrina cristã de que devemos cultuar apenas um deus que, não por acaso, é um homem, branco, loiro e de olhos azuis, reforça a cultura machista e racista na qual estamos inseridos. O racismo religioso está presente no país e fica cada vez mais forte quando, em nome de um deus branco, alguém agride verbalmente o/a candomblecista, umbandista juremeiro/a, mata seu semelhante, expulsa seus/suas filhos/as homossexuais de casa, e estupram suas filhas para que aprendam a gostar de homens. 
 
O número de ataques à terreiros cresceu de forma assustadora esse ano no nosso país o que evidencia uma cultura racista e violenta que, legitimada pela autoridade máxima do Brasil, atinge diretamente as camadas mais vulneráveis da sociedade. 
 
Toda essa violência e intolerância religiosa é causada pela falta de informação, conhecimento e pela imposição da hegemonia branca. Somos a imagem e semelhança de Deus ou criaram esse Deus a sua imagem e semelhança?
 
Por que nos sentimos tão à vontade para zombar e questionar a religião do outro, mas não aceitamos refletir sobre o que está posto nesse texto? Apenas pensemos. Exercitemos, pois, a nossa democracia.