Andrea Nogueira

09/11/2019
Autoridade
 
O ser humano busca, de um modo geral, ser conceituado a partir dos papeis que desempenha. Estes papéis acabam, de fato, posicionando pessoas em graus hierárquicos diversos, a depender do contexto social em que elas estão inseridas. Assim, existe hierarquia no lar, na igreja, no trabalho, no condomínio onde moram, no bairro, nas organizações sociais formais ou informais e nas relações interpessoais de todo tipo.
 
As relações são permeadas de graus hierárquicos que definem pessoas de acordo com a posição que ocupam, deixando em segundo plano o que elas realmente são na dimensão pessoal e moral. Seja qual for o ambiente, a mera existência de alguém já não basta para forjar a estrutura compensatória do seu ego. Uma moldura formada pela posição social é o que aparentemente importa, pois garante a diferenciação dos patamares, distinguindo grandes de pequenos. Nesse bailar, mesmo sem perceber vivemos sob a melodia da diferenciação continua e sistêmica de iguais. 
Toda essa construção conceitual de maiores e menores, mais importantes e menos importantes, dominantes e dominados, mandantes e subordinados, acabou por menosprezar a ideia de pessoas iguais coexistirem num universo social. Acabou, inclusive, confundindo as pessoas sobre o conceito de autoridade.
 
É possível concluir que a corriqueira desigualdade entre homens e mulheres teve seu nascedouro nos conceitos primários de comando, afinal a posição hierárquica no âmbito familiar, por longos anos, também definiu os cônjuges de acordo com a posição ocupada na relação, independentemente do que ambos realmente eram na dimensão pessoal. 
 
A “necessidade” de manter uma posição de hierarquia é secular em qualquer ambiente.
 
Há, de fato, uma potencial preocupação com a posição social e a consciência de todas as regras relativas à manutenção, perda ou ameaça dessa posição. Ocorre que onde existe hierarquia existe também a inferiorização de alguém, seja de forma consciente ou inconsciente. Na maioria das vezes é consciente, pois visa garantir a permanência do status social dominante. Em qualquer situação, seja qual o for o ambiente de relacionamento, a hierarquia existirá mesmo nas entrelinhas. Sendo assim, importa observar que o conceito de família também foi construído ao longo dos anos considerando que ali haveria uma autoridade sobre alguém subjulgado. Enquanto a família não crescia, existindo apenas o marido e a esposa, naturalmente acreditava-se que alguém deveria ser comandado. Não havia cogitação de que ambos seriam iguais em direitos e deveres. E sendo a família o embrião da sociedade, o resultado de tanta desigualdade ao longo dos anos refletiu em muitas dimensões.
Num mundo onde estar socialmente bem colocado significa ter alguém em um nível abaixo do seu, é impossível construir a igualdade, quiçá conceituar corretamente uma autoridade. Por consequência, conceitos de hierarquia e autoridade são constantemente confundidos, como se um dependesse ou completasse o outro.
 
Se toda essa confusão teve parte do seu nascedouro no embrião familiar, podemos começar a desembaraçar os nós conceituais neste mesmo ambiente de relacionamentos.