Ana Paula Campos

04/11/2019
 
MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA: CARNAVALIZAÇÃO DO ENSINO?
 
Caros/as professores/as, não recebam minhas palavras como uma crítica, mas sim como um apelo. O mês de novembro se inicia e com ele, o Dia da Consciência Negra, e nesse período é muito comum as escolas colocarem em suas programações, atividades relacionadas aos/às negros/as.
 
Fico muito feliz com as iniciativas e com todos os convites que recebo para contar histórias africanas, mas vamos tentar pensar mais além? Em algumas escolas o trabalho realizado pelos/as professores/as não caminha de mãos dadas com leituras e pesquisas. O/a negro/a é reduzido ao universo restrito da capoeira, do samba e das comidas típicas. Ao fazerem isso, acabam reforçando estereótipos racistas de que apenas somos bons/as nas manifestações artísticas e na culinária. Mas de qual África estamos falando? De uma África associada à fome e à miséria? Da África da “macumba”? Será mesmo possível que as culturas de 54 países diferentes cabem em apresentações de 5 minutos em um dia específico do ano?
 
Meu povo descende de reis e rainhas. Povos com ritos, mitos e culturas que se perpetuaram em um processo cultural em movimento. De um povo que foi escravizado, mas mesmo assim resistiu e ainda resiste. E o que é feito dos/as negros/as nas escolas no decorrer do ano letivo? Silêncio... 
 
O discurso falacioso das escolas disfarçado de universalização do ensino, na tentativa fracassada de promover a ideia de que somos todos iguais, acaba por evitar o debate, a discussão, a exposição de pré-conceitos. O grito de dúvida dos/as alunos/as é abafado em nome da ordem e da disciplina. O racismo, a discriminação e o preconceito ganham força e seguem fazendo vítimas que não tem lugar de destaque na escola para reverberar suas dores e suas conquistas.
 
Que o dia 21 de novembro seja de muita festa e alegria, mas que os outros 199 dias do ano letivo sejam de leituras, conhecimentos e lutas contra o racismo.
 
Deixo a seguir algumas leituras que podem ajudar nesta tarefa. A transformação começa na escola. Vamos à luta!
 
AMARILHA, Marly; CAMPOS, Wagner. A formação em literatura e a construção das identidades negras no Ensino Fundamental. Presidente Prudente, SP, v. 26, n. 3, p. 141-160, set./dez. 2015.
CAVALLEIRO, Eliane. Brasil. Ministério da Educação/Secretaria da Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Orientações e Ações para Educação das Relações Étnico-Raciais. Brasília: SECAD, 2006.
TOLENTINO, Luana. Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão na sala de aula. Belo Horizonte. Mazza Edições, 2018.