Andrea Nogueira

19/10/2019
 
A masculinidade no lar
 
De manhã bem cedo o despertador toca. Depois de uma passadinha no quarto das crianças para acorda-las, o caminho da cozinha é percurso rotineiro. Leite com chocolate e torradas quentinhas são preparadas para os filhos que chegarão prontos à mesa para um breve café da manhã antes de irem para a escola. Enquanto comem, outro lanche está sendo preparado para a hora do intervalo entre aulas.
 
Ainda é cedo, mas o trânsito está tumultuado. Após deixar as crianças na escola, um novo expediente de trabalho desponta. Se tudo der certo, as crianças serão buscadas no final da manhã e levadas de volta para casa até que o restante do dia de trabalho chegue ao fim para um feliz encontro com o seu pai.
 
“Pai?” Isso mesmo: PAI. Hoje em dia, pais tem rotinas que antigamente eram apenas das mães.
 
A perda da legitimidade do patriarcado foi uma das mudanças mais importantes que caracterizaram o fim do século XX. Houve o aumento de famílias monoparentais chefiadas por mulheres e o ofuscamento da figura do pai na constelação familiar. Conquistas femininas como o direito ao divórcio, ao trabalho remunerado, à escolha quanto ao número de filhos ou da própria maternidade, trouxeram inúmeros reflexos na vida dos homens que usufruíam o papel de provedor colaborador, trocando uma fralda aqui e acolá, “ajudando” a mãe com os cuidados pessoais dos filhos “sempre que fosse possível”.
 
O mundo moderno passou a exigir uma nova figura masculina, já que as mulheres passaram a ocupar cargos de grande responsabilidade, ausentando-se muito tempo do lar em profissões mais bem remuneradas que a dos seus maridos, por exemplo. A mídia também vem ajudando a desenhar uma paternidade contemporânea, no momento em que utiliza, constantemente, a imagem de pais embalando bebês ou realizando tarefas domésticas acrescidas de cuidados aos filhos. 
 
Hodiernamente existe, entre os próprios homens, a busca por uma masculinidade que não seja baseada em mutilações emocionais ou status de dominadores. Homens adultos ressentidos pela falta de um pai presente e caloroso na sua infância também aproveitam o embalo do mundo moderno modificado por movimentos feministas para construir um novo modelo de paternidade calcado em afetividade e proximidade presencial com os filhos.
 
Durante bastante tempo ainda vivenciaremos homens em transição entre antigos modelos preestabelecidos e novas demandas e posicionamentos, embora o fio condutor da masculinidade permaneça apoiado em algum diferencial eleito, tal como ser capaz de proteger e prover a família.
Contudo, importa frisar que a própria assunção das atividades domésticas também surgiu como forma de preservar a autoimagem masculina.
Aproveitando todo esse contexto de mudanças sociais, muitos homens tem se permitido viver processos de autonomização, numa busca voluntária e desejosa de um estilo de vida que permita maior convivência com os filhos, com mais tempo e participação nos cuidados diários destes.
 
O melhor disso tudo é que os homens podem começar essa experiência maravilhosa do cuidado dos filhos sem, necessariamente, arcar com o peso de ser “PAI SÓLO” do ventre até a maioridade. Mas uma coisa é certa: o feminismo libertou também os homens do enquadramento obrigatório da masculinidade com base na força física e na capacidade de manutenção financeira do lar. Liberdade para todos - esse é o ponto.