Ana Paula Campos

14/10/2019
 
Dois passeios pelo racismo estrutural
 
 
 
Você sabe o que é racismo estrutural? Caminhemos entre essas duas pequenas biografias.
 
Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo foram as primeiras mulheres negras a terem suas obras traduzidas e publicadas fora do Brasil. Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960) e Ponciá Vicêncio (2003), apesar de serem obras distintas, tratam das vivências das escritoras, marcando o devir da mulher negra, em que seus relatos de vida tomam forma na sua própria voz e não mais como um reconto a partir da perspectiva do homem branco.
 
Carolina Maria de Jesus, nasceu na cidade de Sacramento em Minas Gerais, no dia 14 de março de 1914. Frequentou a escola por dois anos, mas uma vez alfabetizada, abandonou. Sua mãe conseguiu uma vaga de empregada doméstica na casa de um cirurgião em São Paulo e lá, Carolina lia os livros da biblioteca do médico. Após a morte de sua mãe, passou a morar em barracos na favela de São Paulo, catando papel para sobreviver. Apesar de sua rotina de trabalho estafante, conciliando com a criação de seus filhos, lia em suas horas vagas, escrevendo um diário sobre suas experiências. Em meio às suas produções, constam 7 romances, 100 poemas, 4 peças de teatro, 12 sambas enredos e 60 histórias curtas que passaram a ser conhecidas apenas em 2018, mesmo a autora sendo da mesma época da escritora Clarice Lispector. Morreu pobre em 1977, sem receber o valor real pelas suas obras. 
 
Conceição Evaristo, nasceu no dia 29 de novembro de 1946, na cidade de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais e teve sua identidade de mulher negra fortalecida principalmente a partir da interação com outras mulheres fortes da sua família, que se mantinham resilientes diante das agruras da vida. Sua primeira obra, Becos da Memória (2017), ficou guardada por 20 anos, sendo recusada por várias editoras. Mestre em Literatura Brasileira pela PUC- Rio, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, foi a grande homenageada da Bienal do Livro de Contagem, em 2019, mas apesar disso, perdeu a disputa para a candidatura à Academia Brasileira de Letras, concorrendo para a cadeira de número sete, originalmente ocupada por Castro Alves, para Cacá Diegues. Ela recebeu apenas um voto.
 
Todo esse passeio serviu para ilustrar a definição de racismo estrutural. Ao passo que Carolina Maria de Jesus passou despercebida pela História, mesmo sendo uma escritora genial, Conceição Evaristo apenas foi reconhecida aos 71 anos de idade, apesar de seus títulos acadêmicos e obras de excelência. Duas escritoras brasileiras negras, silenciadas e vetadas por um História hegemônica branca e racista.  
 
Leia mais mulheres negras! Combater o racismo passa por esse caminho.