Ana Paula Campos

07/10/2019
 
NINGUÉM NASCE NEGRA. TORNA-SE NEGRA!
 
 
Permitam que eu me apresente. Sou Ana Paula Campos, uma mulher negra de 39 anos. Por que preciso dizer isso? Porque sou negra há muito pouco tempo.
 
Por ser dona de um cabelo cacheado e volumoso, sempre ouvi, quando criança e ainda hoje, expressões do tipo:
 
- “Prenda esse cabelo para domá-lo!”
 
- “Você é tão bonita, se alisar o cabelo vai ficar ainda mais bonita!”
 
- “Tadinha, a mãe tem cabelo liso, mas a filha nasceu com cabelo ruim...”
 
Eu não conhecia a literatura negra, não me sentia representada em lugar nenhum. A minha referência de beleza era minha mãe, uma mulher negra, magra e de cabelo liso. Eu não me encaixava. 
 
A minha cor em si nunca foi um problema. Apelidada carinhosamente pelos amigxs de “nêga”, se sofri com o racismo nas escolas particulares de Natal foi tão velado que não percebi. Não estou dizendo que não exista. Sempre há.
 
Já o cabelo... ah, o cabelo era um problema. Alisava a cada três meses porque a raiz crescia rápido e eu não queria nem sinal daquele “pixain”. Eram quatro horas de sofrimento com um produto que fazia arder e queimar meu couro cabeludo e frequentemente deixava feridas. Mas eu fazia qualquer coisa para me sentir aceita. 
 
Ser aceita... por que eu precisava da aceitação de pessoas que não me achavam bonita ao natural? Por que eu precisava da aceitação de pessoas racistas e preconceituosas?
 
Tomei coragem e fiz o “Big Chop”. Quem eu era, foi-se com os cabelos. Mas a questão é: quem eu sou agora? Hoje meu cabelo black ou trançado responde por mim. Aonde eu chego, ele passa o recado: “estou segura demais de mim pra ser silenciada e alisar minhas raízes, negando quem eu sou”.
 
Mas na realidade não é tão simples assim. Frequentemente eu prendia os cabelos ou perguntava se estavam “muito armados”. O que estou tentando dizer é: sou uma mulher negra, ainda em construção. A transição capilar pode durar em média um ano, já a consciência identitária varia de preta para preta e pode durar uma vida inteira.
 
O tão sonhado empoderamento não é algo que acontece magicamente. É fruto de leituras, reflexões e lutas internas contra os padrões de opressão. Mas o caminho entre a descoberta e a autoafirmação é fascinante. Caminhemos...
 
Então, ao cruzar com uma crespa ou cacheada que alisa o cabelo, não diga que ela precisa deixar o cabelo natural. Não decida por ela se está ou não bonita. O empoderamento é um processo lento, doloroso e individual, e cada uma decide como é feliz.