Andrea Nogueira

05/10/2019
 
Mulher Objeto
 
 
Num mundo capitalista com forte estrutura de exaltação do consumo, o movimento de mercadorias é comum, pois é através dele que as riquezas são formadas. O problema é quando tudo passa a ser objetificado, inclusive os seres humanos, para que possam fazer parte desse ciclo consumista.
 
Homens e mulheres são forte alvo de objetificação sempre que são utilizados para explorar o desejo de maneira econômica. E o consumo desmedido alcança os relacionamentos interpessoais, distorcendo as relações e influenciando nas decisões mínimas sobre a escolha de uma pessoa para compartilhar a vida, por exemplo.
 
As mulheres sempre foram extremamente exploradas para retratar uma história ou produto. A mídia agiu, por longos anos, sob uma ótica completamente machista, entendendo o público consumeirista como um homem heterossesuxal. Assim, olhares languidos, pouca roupa e muito sensualismo, marcavam o comercial de um carro, de joias, de alimentos e de tantos outros produtos. Hoje em dia, com as evidentes mudanças sociais e a aceitação do homossexualismo como realidade comum, a nudez e sensualidade de homens passaram a ser bastante explorados também. Contudo, objetificação feminina é bastante superior. O que tem de mulher sem cabeça e parte de corpo “desmembrado, mas sexy” por aí não é brincadeira.
 
Olhando bem de perto, é possível perceber que a ideia midiática ainda é expor algo para um público de homens. Como se os homens ainda fossem o principal consumidor de tudo o que se anuncia. Outra hipótese perceptiva é que a mídia aposta na ideia de que homens e mulheres já estão necessariamente convencidos de que dar prazer ao público masculino é, acima de tudo, natural e necessário. Talvez por isso, muitos nem percebam que o que está sendo oferecido é uma dicotomia machista: a mulher como objeto e o homem como sujeito. Hodiernamente, temos também homens objetos para homens sujeitos.
 
Ocorre que a dicotomia ora apresentada perpetua a desumanização das mulheres e a diminuição da sua importância como pessoa. Consequentemente, induz comportamentos automáticos de aceitação do feminino em ambientes políticos ou empresarias apenas para “florir” ou “mesclar um pouco”, jamais dando a mulher a real oportunidade de adentrar com ideias e poder de decisão nos ambientes de trabalho tradicionalmente ocupados por homens.
 
A coisificação existe para garantir interesses e relações de poder, geralmente econômico. Nesse sentido, urge frisar que estudos concluídos já fixaram o estupro como crime de poder, desvinculando-o da simples caracterização sexual.
 
Olhar para o feminino sob uma ótica desvinculada das ideias midiáticas é um grande desafio. Olhar para o ser humano está, realmente, bastante difícil. Enxergar nas pessoas a sua essência pessoal, seu caráter, suas ideologias e motivações vitais é desafiador para uma sociedade bombardeada por imagens, ideias e músicas ditando que o importante é o tamanho do prazer que alguém pode proporcionar ao sujeito que se encontra no trono do poder. Mas olhando bem de perto, será possível ver as pessoas além dos objetos.
 
Quando homens e mulheres compreenderem que feminismo não é palavra inventada para mulheres brigarem com homens, compreenderão também que o machismo existe para manter uma relação de poder entre eles. Os que já compreendem, não aceitam a dominação e já enxergam todos como pessoas.