Arthur Dutra

21/08/2019
 
Como criar uma Campus Party permanente em Natal
 
No último final de semana, Natal recebeu mais uma edição da Campus Party, um evento de reconhecido valor e que tem como objetivo reunir num mesmo espaço pessoas que pensem e trabalhem com tecnologia, inovação, statups, enfim, com o futuro. Do mero encontro dessas pessoas ao longo de três dias num ambiente estimulante surgem mais ideias, novos projetos, parcerias, negócios e crescimento. Trata-se, como se vê, da miniatura de uma cidade inovadora, conectada e próspera. Mas se é assim, como podemos transportar esse modelo Campus Party de sucesso para o contexto de uma cidade inteira como Natal a fim de que ela desfrute, de forma permanente, dos benefícios da reunião de muitas mentes criativas e empreendedoras?
 
Em 2017, a Câmara Municipal aprovou uma lei que oferece incentivos fiscais (IPTU, ISS e ITIV) para empresas da área tecnológica que aqui se estabeleçam (Lei Complementar nº 167/2017). A ideia é aproveitar o potencial do Instituto Metrópole Digital – IMD na formação de jovens e na incubação de startups para criar o que a lei chama de Parque Tecnológico. Trata-se de uma boa iniciativa, mas em razão do pouco tempo em vigor ainda não é possível cravar com razoável coeficiente de certeza o sucesso ou o fracasso da legislação. O que é certo, porém, é que é preciso ir além para que Natal seja uma capital que atraia -  e segure! - inteligências e investimentos nesta área, criando um ambiente permanentemente estimulante para a inovação e o desenvolvimento.
 
É que políticas de incentivos fiscais, se podem dar uma resposta imediata para a necessidade de captar investimentos, não são, sozinhas, suficientes para manter esses investidores no local. O Rio Grande do Norte, aliás, já testemunhou diversas empresas que, ao cabo do período de isenção/incentivo, fecharam as portas e foram embora em busca de novos e maiores incentivos em outro estado, pois não encontraram mais nenhum atrativo na região além de um generoso desconto nos impostos. Trata-se, portanto, de um modelo com prazo de validade, bem ao gosto do gestor que não consegue ter um horizonte maior do que a próxima eleição. Por isso é preciso ir na raiz da questão, e nem é preciso inventar a roda.
 
Jundiaí, localizada a 60km de São Paulo, vem experimentando um período de transformação graças à chegada em massa de empresas de tecnologia como a gigante Siemens, que emprega mais de 2.000 funcionários. A cidade foi citada pela revista Foreign Direct Investment Strategy, do grupo britânico Financial Times, como a melhor cidade do Brasil com mais de 350 mil habitantes para receber investimentos. A receita? Boa oferta de insumos estratégicos como água e esgotos tratados, energia abundante, infraestrutura de comunicação, modais de transportes variados, proximidade dos maiores mercados consumidores, segurança, saúde e educação de boa qualidade, além de mão de obra qualificada para atividades que exigem maiores especializações, tudo organizado dentro de um plano de longo prazo chamado Jundiaí 2050. Nada, portanto, que também não seja benéfico para o cidadão jundiaiense, independente de atrair ou não empresas de tecnologia.
 
Trata-se de uma constatação óbvia: uma cidade que oferece bons serviços urbanos para o seu morador, certamente será uma cidade onde qualquer pessoa gostaria de investir e viver, inclusive os representantes da chamada “classe criativa” de que fala o urbanista americano Richard Florida, e que sempre marcam presença em eventos como a Campus Party. E se essa cidade ainda tiver mais atrativos extras, como os incentivos fiscais da lei do Parque Tecnológico e um centro de excelência formador de inteligências como o IMD, não tem quem segure: teríamos, sim, nossa Campus Party permanente a colocar Natal, de forma definitiva, na rota da inovação, do desenvolvimento e, principalmente, do futuro.