Arthur Dutra

19/06/2019
 
Natal, uma cidade produtora de ideias
 
Sempre que somos chamados a pensar a nossa cidade, é natural que projetemos nessas discussões ideias grandiosas e até mirabolantes. É compreensível que seja assim, afinal, queremos sempre o melhor e mesmo o impossível. Diria mais: é fundamental que tenhamos este impulso de querer algo novo e encantador. Sinal que estamos vivos e queremos uma cidade igualmente viva. Mas eis que nessas horas surgem aqueles realistas inveterados que nos cutucam com a imagem do hoje, do que não está funcionando como deveria e que tem, portanto, mais urgência, pois se trata do básico. E ambos, o sonhador e o realista, têm razão! Não se pode sonhar com um futuro extraordinário quando o mínimo não está sendo feito. Mas também não se pode pensar apenas em resolver o básico e fechar a janela da imaginação criativa.
 
A discussão é salutar, mas eu acredito que essas duas linhas de pensamento podem e devem caminhar juntas: a mente prática e inventiva que saberá dar cabo dos problemas rotineiros do hoje, e a mente prática e inventiva que saberá enxergar novos caminhos que a cidade poderá percorrer. Aliás, os problemas é que serão a matéria- prima da inovação desbravadora, dentro daquilo que ensina Nassim Taleb.
 
Ademais, a solução dos pequenos problemas cotidianos das cidades não precisa vir exclusivamente do governo. Uma cidade realmente viva e que queira avançar e sobreviver (sim, pois cidades também morrem!) precisa criar o ambiente propício para que aquelas mentes práticas e inventivas pensem, trabalhem e ofereçam seus serviços inovadores para as finalidades do dia a dia das pessoas da cidade e, com isso, premiem com o lucro a inteligência empreendedora, que é um ativo fundamental para os tempos que virão.
 
E como se cria este ambiente favorável para que presente e futuro convivam de forma harmoniosa? A primeira coisa a fazer é permitir que as inteligências floresçam e queiram estar na atmosfera estimulante da nossa cidade. Num mundo amplamente urbanizado e com cidades colapsadas, a qualidade da vida urbana não é apenas uma demanda da sociedade aos governos, mas um poderoso capital da cidade, pois ele será o imã a atrair pessoas e recursos. E serão essas mentes – as nativas que se qualificam e as novas que chegam – que se encarregarão em fazer o resto do serviço, movidos pelo espírito empreendedor, ideias e vontade de prosperar num ambiente bom de se viver.
 
Há no mundo de hoje diversas grandes cidades que apostaram alto em qualidade de vida e em seu capital humano e tiveram sucesso estrondoso. Seul, Nova York e Bangalore (Índia) são metrópoles que colhem os frutos da bonança por terem prestigiado, segundo o economista e professor de Harvard, Edward L. Glaeser, três princípios básicos: concorrência num livre mercado de ideias, conexão com o mundo e capital humano qualificado. A história está farta de mostrar que ambientes com essas características atraem pessoas do mundo inteiro, e é com gente qualificada, sonhadora, criativa e ambiciosa que as cidades conseguem dar um salto real.
 
Façamos o básico, claro, pois um buraco na rua ou uma calçada estraçalhada não se resolvem sozinhos, e corrigir isso também faz parte do necessário investimento em qualidade de vida urbana. Mas também precisamos, urgentemente, pensar em como viabilizar em Natal e na região metropolitana esse ambiente fecundo de liberdade,
competição, abertura, inovação e empreendedorismo, que será – este sim! - nosso passaporte para a prosperidade.
 
Se conseguirmos cultivar essa mentalidade que já tirou cidades da pobreza e da estagnação para um caminho de riqueza e desenvolvimento, o básico do dia a dia será beneficiado de forma bem menos custosa e com menos interferência do governo. Com isso, Natal pode entrar no time das cidades que apostaram na inteligência e no talento e conseguiram um título inestimável, o de cidade produtora de ideias. E de esperança.