Valério Mesquita

12/01/2019
 
EM NOME DO BEM
 
Desde a Bíblia, quando Pedro negou três vezes o Cristo, que o galo é símbolo, é sinal, é canto. Galo também é passarinho de campina, é peixe: galo do alto, galo do mar, enfim, é pastorador de noites indormidas e anunciador de auroras. Em Natal ele identifica a cidade no folclore, nos folguedos populares e do alto da Igreja Santo Antônio desperta e chama o povo à oração. Além de tudo isso, durante quinze anos em Natal o “Galo” foi um jornal de cultura. O seu canto alto e sonoro ultrapassou os limites do Rio Grande do Norte para levar a mensagem da nossa literatura aos quadrantes do país. Tornou-se conhecido e respeitado. Hoje, chovem perguntas no terreiro potiguar: cadê o “Galo”? Por que emudeceu? 
 
O jornal foi criado e mantido ao longo do tempo pela Fundação José Augusto, à época de Woden Madruga, no governo Geraldo Melo. Politicamente isso não tem nada a ver. Na verdade, criou-se um informativo cultural mensal, apolítico, vibrante, que divulgava a poesia, a prosa, as idéias e correntes de pensamento dos autores norte-rio-grandenses sem “igrejinhas”, “chiqueiros”, preconceitos ou elitismo. O “Galo” não era um jornal de governo e muito menos de partidos. Era um veículo independente nascido para ficar, para vencer, porque a cultura continua a ser a única atividade humana que haverá de permanecer quando tudo o mais passar. A cultura não tem preferências políticas ou eleitorais. O “Galo” foi o intérprete honesto e seguro da intelectualidade estadual e editado a custo praticamente zero, vide o matutino “Agora RN”.
 
No momento em que o meu amigo e intelectual Crispiniano Neto assume o comando da Fundação José Augusto, ouso pedir que não deixe o “Galo” morrer. Mesmo que outros planos editorias integrem o seu voo de retorno a FJA, faça ressurgir o “Galo” como se fosse o primo canto, com a sua marca registrada, com o seu selo, o seu timbre oestano de menino forte, labareda da chama votiva de um Almino Afonso. O voo desse jornal não é de um galináceo. É de condor, sobranceiro, por cima das serras de Martins, Patu, Mossoró, do Alto ao médio Oeste e sobre as dunas do litoral, porque a sua penugem é tecida das cores do arco-íris das cabeças pensantes do Rio Grande do Norte. O meu aceno é honesto, sincero e não tem o condão de interferir nos propósitos e projetos do novo dirigente da política cultural do Rio Grande do Norte. 
 
É apenas a reflexão de um calejado escriba, ex-presidente da FJA, que pertence ao Conselho de Cultura, integra a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e presidiu o Instituto Histórico do Rio Grande do Norte. Faço o meu apelo com o objetivo de contribuir. É uma sugestão, apenas. E acredito que, se forem ouvido o Conselho de Cultura, a Academia e os intelectuais do Estado, o “Galo” cantará tão livre e libertário quanto cantou e lutou o nosso François Silvestre, na noite negra do regime autoritário.