Cefas Carvalho

09/01/2019
 
A eterna nostalgia do homem/branco/hétero/quarentão/classe média
 
 
É sempre o mesmo discurso, uma repetição das mesmas frases como naquelas comédias norte-americanas. Toda vez que sento com amigos e conhecidos com o perfil homem-hétero-branco de classe média ou alta e na faixa dos 40/50 anos, a nostalgia é a mesma.
 
Começa com a música. A música "do passado" sempre era melhor. Anos 60, 70, 80... Ah, aquilo que era música. Tenho amigos que já acham U2 e Oasis "modernos" demais. Bom mesmo eram Pink Floyd, Deep Purple, Beatles... Pabllo Vittar, Anitta, Alok? Para eles nem música é. E desdenham também de Tiê, Lenine, Ceu, Liniker. Afinal, a música boa era só a "de antigamente".
 
Passa pelo cinema, claro. "Antes é que faziam filmes de verdade", dizem, citando O Poderoso Chefão, Rocky, um lutador, Tubarão... Geralmente filmes bem "machos", digamos. E hoje, o cinema não produz bons filmes? E Vingadores, e a diversidade e facilidade da Netflix? "Não é igual ao passado". repetem.
 
Carros bons? Ah, eram os do passado! Quanto à cidade? Antigamente era mais segura, mais tranquila... e ao mesmo tempo mais agitada, mais divertida.
 
Tem a Educação, também. Antes os pais sabiam educar os filhos, porque hoje em dia... Os pais são "frouxos". "Eu apanhei dos meus pais e nem por isso fiquei perturbado". Bem, para mim ter nostalgia de ter apanhado já denota certo sinal de perturbação, mas, enfim.
 
E, bem, chegamos ao delicado tema "mulheres". Que é outra obsessão do homem quarentão nostálgico. Antes, seja lá quando era esse "antes", as mulheres eram mais... tudo. Mais delicadas, mais femininas, mais bonitas. Mais submissas, admitem alguns. Muitos amigos meus na faixa 40/50 estão assustados com as mulheres "de hoje em dia". Feministas demais, será?
 
O curioso é que para esse pessoal o que mudou foi o mundo e não eles próprios. Talvez não percebam que o "mundo melhor" de antes era simplesmente a visão da juventude, o olhar da adolescência sobre a cultura, a cidade, as mulheres.
 
Nostalgia é agradável e romântica e lembrar do passado tem lá seu lado saudável. Mas, como dizia minha avó, tudo que é demais é muito.