José Pinto Júnior

06/12/2018
 
Do engarrafamento, buracos nas ruas de Parnamirim e da poesia 
 
A rigor todos os dias e noites são iguais. Mas há dias mais belos que outros. Há dias iluminados e dias de nuvens turvas. Mas, para cada um é diferente. Alguns acham que ganharam o dia e outros acham que perderam mais um dia. O fato é cada dia vale a pena, se “a alma não é pequena”, tal qual inspiração de Fernando Pessoa. Por agora, agarro-me em Ferreira Gullar que ensina que “a arte existe porque a vida não é suficiente”.
 
Os dias seriam mais duros sem a arte. O trânsito continua lento, mas seria mais áspero sem Chico Buarque cantarolar: “Oh, pedaço de mim! Oh, metade afastada de mim! Leva o teu olhar, Que a saudade é o pior tormento. É pior do que o esquecimento|É pior do que se entrevar”.   
 
O engarrafamento no centro de Parnamirim ou em frente ao Midway, em Natal, continua terrível. Mas, certamente seria pior sem ouvir a Divina Comédia Humana de Belchior: “Porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual”. Podemos tropeçar nas calçadas ruins de Parnamirim, cantadas por Ismael Alves. Mas, a arte ilumina as escuridões das ruelas mal cuidadas e da vida de cada dia. De casa um. “No meio do Caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do Caminho”, avisa Drummond de Andrade. 
 
Dizem que para conhecer alguém lhe conceda poder. Da cadeia Giroflex, o poderoso exerce a autoridade como um líder que ouve e delega ou como o francês Luiz XIV. “O Estado sou eu”.  Estes adoram exercer suas vinganças imaginárias, deixando as pessoas esperarem. O gozo na dor alheia. Exercem o famoso “chá de cadeira”, vendo por câmaras e se divertindo com o tic tac do relógio que parece passar de forma diferente para quem espera. Egos imensos. Horas eternas.  Lá vai uma dica, para quem espera e não desespera. Leve o livro Hai Cai, Pena Mínima de Lívio Oliveira. No caso de chá de cadeira longo, vá de “Relógio”, de João Cabral de Melo Neto, “Ao redor da vida do homem|Há certas caixas de vidro| Dentro das quais, como em jaula| e ouve palpitar um bicho”. Ou Luiz Vaz de Camões: “Amor é um fogo que arde sem se ver| É ferida que dói, e não se sente| É um contentamento descontente|É dor que desatina sem doer”. Um chá de cadeira pode render leitura de muitos sonetos de Vinicius de Moraes, ou apenas um soneto. Por agora, apenas dois tercetos: “E assim, quando mais tarde me procure|Quem sabe a morte, angústia de quem vive|Quem sabe a solidão, fim de quem ama - Eu possa me dizer do amor (que tive):|Que não seja imortal, posto que é chama|Mas que seja infinito enquanto dure”. Chico recomenda que contra fel, mulestia crime, vá de Dorival Caymmi e Jackson do Pandeiro. 
 
Contra chá de cadeira, vá de Zila Mamede nos ensina com a poesia A Ponte: 
“Salto esculpido
subo vão
do espaço
de pedra e de aço
onde não
permaneço
– p a s s o.”.  
 
Ou de Diógenes da Cunha Lima: “No silêncio do corpo|Pulsa o relógio| No pulso do morto”. 
 
Chá de cadeira deixa de ser perda de tempo quando se carrega um livro. O tempo passa muito mais depressa. Simplesmente porque você já não está esperando, está viajando... E viajar é bom. O sadismo de quem impõe o chã de cadeira, perde-se por completo. Como na música Olhos nos Olhos de Chico Buarque: “Quero ver como suporta me ver tão feliz.” Outro dia quase fiquei irritado. Não pelo  chá de cadeira, mas porque foi chamado justamente quando estava quase decorando poema de João Cabral. Ainda perguntei: “Já... se há alguém com mais pressa, por favor...”
 
 Julio Cortázar diz que conto se vence por nocaute e romance se vence por ponto. Há chá de cadeira para se vencer por nocaute e chá de cadeira para vencer por pontos.  O livro de conto, permite que a leitura comece do fim, no caso, de traz para a frente. Do meio. Não há proibição de lê-se  apenas um e mudar de livro. Pode largar pela metade e nunca mais voltar a ler. Ou lê inteirinho. Mas, o que é bacana é que; se o chá de cadeira for longo e repetido, é possível lê vários contos. Se for pequeno, se ganha um conto. Se for longo, se ganha vários contos. Chá de cadeira é incentivo à leitura... Mas, há quem pense ser castigo. 
 
Antes de publicar este texto, mostrei para um amigo que indagou: “Que diabo tem a ver poesia com os buracos das ruas de Parnamirm e o caos no trânsito da Grande Natal”. Respondi de bate e pronto: “Sei não. Mas que existem, existem!”. Quantos ao tamanho dia, não se pode fazer nada. Mas, a  poesia, o torna mais bonito, mas leve. “A arte existe porque a vida não basta”. Quem duvidar, que leia ou escute o Poema Sujo do Ferreira Gullar.