Daniel Costa

07/11/2018
 
Instituições desacreditadas
 
Quando o euro estava em alta, hordas de italianos e de espanhóis desovavam em Ponta Negra para chafurdar com prostitutas e traficantes. Os ca-ras movimentavam o comércio ilegal da cidade. Eles queriam, acima de tudo, deturpar todas as regras de boa convivência. Daí que com muita grana no bolso e pouca fiscalização, Natal virou o lugar perfeito para que os gringos demons-trassem o que a ética aristotélica havia produzido em termos do moderno ho-mem europeu.  
 
Desde esse tempo, cheguei à conclusão que a ideia de que o pr-blema da corrupção do país é culpa exclusiva da cultura do brasileiro, que des-tila a ética do jeitinho, não poderia ser vista como uma verdade insofismável. 
 
Ainda que seja possível dizer que cada país tem uma espécie de ética particular, acredito que o problema não esteja restrito somente a essa questão. A dificuldade dos brasileiros em se desvencilhar da corrupção, na ver-dade, é algo que vai além da ética forjada desde os tempos da colonização, quando os habitantes do país eram obrigados a mentir e a se esconder para fugir das iras dos invasores. 
  Tanto aqui quanto em qualquer outro lugar, existem pessoas que-rendo corromper e passar por cima dos problemas. Basta ver o escândalo da FIFA envolvendo Michel Platini; a corrupção do  ex-presidente da Alemanha, Chistian Wulff; e os casos de fraude nas eleições americanas. Exemplos não faltam. A diferença é que esses desvios cometidos pelos lados de lá são geral-mente combatidos com maior vigor. As prisões funcionam; as regras jurídicas são respeitadas pelos aplicadores da lei e coisa e tal. 
 
Os gringos desbundam por aqui porque sabem de antemão que as instituições nacionais trabalham a meia-sola. O nó, portanto, não está apenas num certo tipo de comportamento desenvolvido durante o curso da nossa histó-ria. Ele também encontra corda na fragilidade das instituições. 
 
É por isso que eu acho que nós não precisamos de mais ética. A ética não está em crise. O que é necessário é o fortalecimento das instituições. E sob esse ângulo, estamos descendo a ladeira. O judiciário é uma casta exempli-ficada  pelo processo do auxílio-moradia, que dorme no berço do STF. O poder legislativo virou sinônimo de falcatrua. E o executivo está à beira de ser capita-neado por um presidente que ignora as instituições. O Estado brasileiro não consegue fazer valer direitos basilares constitucionalmente previstos, e até por isso a população não liga para obedecê-los. 
 
Nessa perspectiva, o atual combate à corrupção não passa de um grande engodo. Ele jamais será capaz de mudar a maneira como funcionam as instituições do país, principalmente porque a própria operação Lava-Jato, que levanta a bandeira da faxina geral, tem servido para fragilizar as instituições ao descartar o texto da Constituição para condenar mais uns do que outros.