José Pinto Júnior

16/09/2018
A vida fora da agenda
 
Dizem que no futuro acontecerão guerras por água. Já no presente a guerra é por tempo. Estamos vencidos pelo relógio. Independente dos pecados, estamos condenados. Se tempo é vida e não o temos, já estamos fritos. Desde os anos 80, Cazuza nos ensinou que “O tempo não pára!” Nos transformamos no Coelho Branco do livro White Rabbitt, As aventuras de Alice no País das Maravilhas: “Ai, aí aí, Vou chegar atrasado demais!” As vezes nem chegamos. Apesar da pressa!
 
Em geral, pensamos que a morte só acontece depois que o coração deixa de bater, mas a morte também acontece quando ele bate forte, mas a agenda não permite ouvi-lo. É quando não há agenda para o nós. Quando não há agenda para o eu. A morte também acontece aos poucos. Todos os dias. “O próprio viver é morrer, porque não temos um dia na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela”, sentencia mais Fernando Pessoa.
 
Abortamos o bem viver, quando saímos no meio do filme, porque não há tempo de ver a película até o fim. Quando largamos o café pela metade. Lá ficou o café e o amigo. Esfria o café e esfria a amizade. Lá ficou alguém apaixonado. Esfriam as amizades, esfriam as paixões e claro, o café. Abortamos o livro pela metade, um romance sem fim conhecido ...O que pode ser angustiante? O poema pela metade é vida sem rima. O conto não concluído ... porque temos pressa!
 
E se crianças carentes que nos vêem como heróis gigantes nos esperar para um abraço. Se precisarem de uma palavra. Teremos agenda? Talvez heróis gigantes mesmo sejam os sonhos e as esperanças dos adultos de amanhã. A pressa tornou o adulto hoje pequeno. Uma pena! “O menino é o pai do homem”, escreveu Machado de Assis. Adultos não tem agenda para o abraço. Adulto têm pressa, mas não tem pressa de viver como canta Belchior. As crianças têm tempo longo para a vida, os adultos tem tempo curto para projetos pequenos. Para o professor e escritor Clóvis Barros, “a vida que vale a pena é quando a sua existência faz a diferença para o outro”.
 
Com amigos marcamos cafés, cervejas e churrascos para adiarmos ou nunca acontecer. Não temos tempo para brindar a produtividade do dia com um café no final da tarde. Inexiste tempo para o espetáculo que transforma dia em noite. Tudo muda de tom, mas não há tempo para ver. Olhar as estrelas e a lua refletida dança em ondas. Esquecemos Fernando Pessoa: “Deus ao mar o abismo e o perigo deu, mas nele é que espelhou o céu”. Verso não cabe na agenda de pessoas tão formais e apressadas.  Na crônica Fazer Nada, o escritor Rubem Alves fala da gratidão de sentir vento no rosto em baixo de um pé de ipê sem o compromisso com a agenda. " Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno. Se preciso de agenda é porque não está no coração. Não é o meu desejo. É o desejo do outro(...)Ah, muitas pessoas não tem alma. O que elas têm no seu lugar, é agenda. Por isto, são incapazes de entender o que estou dizendo: em suas almas-agendas já não há lugar para o desejo".
 
 
Há uma historia real de uma pai que vale a pena registar. Em determinado momento estava alegre e triste ao mesmo tempo. O filho havia passado em um concurso e iria se mudar para o Sudeste, por isto estava feliz. Mas, também chorava de tristeza, porque não viu o filho crescer. Quando viajava ou quando saia para trabalhar deixava o filho dormindo e quando chegava também o encontrava apagado. Depois daquela data não o veria nem mais durante o profundo sono...Nas sociais circula um texto mais ou menos assim: Uma criança junta a mesada que o pai lhe dá durante bastante tempo. Quando o pai lhe pergunta o que deseja de presente no dia das crianças, o filho responde que deseja comprar um pouco do tempo do próprio pai para tê-lo em sua companhia. Abrindo a caixinha cheia de cédulas e moedas: “Quanto custa uma hora de seu tempo papai?” Não há melhor presente para alguém que o seu tempo!
 
Se não há tempo para o sol, para o céu e para as estrelas, por que haveríamos de dispor de tempo para pararmos de frente ao mar e dividir uma cerveja diante do infinito e sentirmos a festa de nossas “fatigadas retinas”? Na inspiração de Vinicius Moraes, “A onda solitária é o berço do amor e há uma música eterna nas formas invisíveis”.  Toda imensidão refletida no olhar de quem se ama.  Um dia, quem sabe! Mas, um homem jamais toma banho no mesmo rio duas vezes. Pois nem o homem e nem o rio serão os mesmos amanhã. Um dia a emoção não será a mesma. A luz não será a mesma. As ondas não serão as mesmas. As paixões não serão as mesmas. Talvez, apenas as agendas sejam as mesmas, distantes do ar puro.
 
É comum pessoas tomarem café e se alimentarem em pé, pois não há tempo para degustar sentado. O tempo é “guardado” para o trânsito, para a burocracia, para o chá de cadeira, para ser gasto na falta de planejamento. Não paramos diante dos quadros de Picasso ou Dorian Gray. Das fotografias de Canindé Soares e Emerson Amaral. Das poesias de Vinicius de Moraes e de Cefas Carvalho. Dos textos de Rubem Alves e Michele Paulista. Da música de Chico Buarque e de Ismael Alves. Mas a arte de Drummond oferece uma pista: “Dentro de mim, bem no fundo há reservas de tempo, futuro, pós-futuro, pretérito”. O filósofo Mário Sérgio Cortella, resume que tempo é prioridade!
 
O escriba até gostaria de se escrever mais algumas palavras. Mas a corda do tempo já é sentida no pescoço. Uma briga para refazer agenda. Para refletir com Cortella. Um último pedido, ouvir composição de Nonato Luiz e Raimundo Fagner, na voz de Belchior: Mucuripe ...“Paletó de linho branco que até o mês passado lá no campo era flor”...