Daniel Costa

14/09/2018
Samba, Política e Loucura
 
Como 2018 não terminou, ainda dá pra pegar carona na morte de Niltinho, ocorrida em fevereiro, e falar uma ou duas coisas sobre samba e política. Para quem não sabe, Niltinho foi o compositor de "tristeza", uma das mais aclamadas músicas do Brasil, imortalizada na voz de Jair Rodri-gues, e posteriormente interpretada por uma penca de grandes artistas na-cionais e do exterior. 
 
A primeira versão desse samba foi feita em 1963, após uma briga de Niltinho com a sua então namorada. A música foi lançada no bloco Foliões de Botafogo e em seguida gravada por Ary Cordovil, a partir de uma se-gunda versão criada com o reforço de Haroldo Lobo. Mas o estouro da composição se deveu, além da sua incontestável beleza, também ao fato de, à época do seu lançamento, ter-se abatido sobre o Rio de Janeiro uma en-chente de grandes proporções, que quase impediu a realização do carnaval carioca naqueles idos de 60. A música serviu, portanto, de alento e de espe-lho para refletir o baixo-astral que tomava conta das pessoas às vésperas da festa de momo: "tristeza/ por favor vá embora/minha alma que chora/ está vendo o meu fim (...)".
 
Assim como naqueles tempos, vive-se hoje um cenário de tristeza. Os brasileiros andam macambúzios. Não em razão de uma catástrofe natu-ral, mas diante do cenário de violência que toma conta da política. A faca-da desferida em Jair Bolsonaro dá o tom desse panorama, abrindo espaço para uma onda de polarização na campanha eleitoral. 
 
De um lado, alguns esquerdistas menosprezam o fato. Sem o apoio da lógica, dizem que o candidato não foi esfaqueado e que tudo se resumiu a uma grande armação para granjear eleitores. Na outra ponta, os extre-mistas da direita, com base em coisa nenhuma, alegam se tratar de um complô arquitetado pelos partidos de oposição, objetivando acabar com a vida do presidenciável que está à frente nas pesquisas. 
 
No meio dessa psicose, depõem contra tais teorias a fala do próprio criminoso afirmando que cometeu o delito  "a mando de Deus", e as repor-tagens de diversos órgãos da imprensa registrando que o sujeito tinha pro-blemas psiquiátricos. Ou seja, em razão do radicalismo político reinante, quase ninguém percebeu o argumento mais racional: não existe nenhuma trama, mas um crime cometido por um doente mental. Aliás, algo bem fac-tível de acontecer, já que, como constatou Focault e mais recentemente Laure Murat, nos momentos em que impera a violência social, a política é capaz de invadir a subjetividade se estendendo ao próprio conteúdo do de-lírio. Daí a quantidade de loucos que, no período entre a Revolução Fran-cesa e o império de Napoleão, aportavam nos hospícios  alegando terem sido degolados. 
 
Mas a verdade sem roupa é que o atual radicalismo cegou a razão. O momento é de pura melancolia para muitos brasileiros. E não existe hoje nenhuma canção como a de Niltinho, capaz de acalentar corações e fazer nascer, depois de uma maré de desgosto, a esperança dos bons ventos, co-mo um dia aconteceu com os cariocas ao ouvirem explodir nas rádios o re-frão  de "tristeza", cantada em ritmo de carnaval.