Cefas Carvalho

07/07/2018
O bairro da Liberdade, como toda São Paulo, é rica em diversidade, em todos os aspectos, igualmente na gastronomia. Ou seja, tem de tudo. De restaurantes gourmets da moda (chiques e caros, digamos) às barraquinhas de feira com tempurás tão gostosos (e baratos) como oleosos.
 
E no bairro, onde coexistem pacificamente até onde sei as colônias chinesas e japonesas, existem também os restaurantes "raiz" dos primeiros, aqueles com comida farta e barata em relação inversamente proporcional ao atendimento e detalhes outros. Dentre esses alguns bem conhecidos, como o Rei dos Reis, o Ban Wa (que já tive oportunidade de conhecer ano passado) e o lendário (para o bem e para o mal) Chi Fu.
 
Situado numa rua esquisita na Praça Carlos Gomes, em frente à Praça da Liberdade, o Chi Fu chamou minha atenção pelos comentários de amigos e por eu ter lido comentário sobre ele no excelente "Guia da Culinária Ogra de São Paulo", livro do jornalista André Barcinski que explora justamente esses restaurantes, lanchonetes e bares onde se come bem e por preço justo. O livro se tornou um guia particular meu em viagens à Paulicéia. E a resenha sobre o Chi Fu que ele fez sempre me chamou a atenção. Um resumo:
 
"O Chi Fu é a prova viva de que um restaurante pode sobreviver – aliás, triunfar – tratando o cliente como lixo. Antes considerado um defeito do local, a grosseria e falta de educação das garçonetes já virou uma de suas marcas registradas. Se você não falar mandarim e não vier dos cafundós da China, prepare-se para ser colocado numa mesa ao lado do banheiro masculino ou para levar broncas do tipo: “O quê? Você vai pedir ISSO?!”
 
Os dois trunfos do Chi Fu, no entanto, são poderosos: sua comida e seu cardápio. A comida é fantástica e variada. Os mais conservadores podem pedir gigantescas porções de chop suey, lombo agridoce, frango xadrez ou yakisoba. A clientes mais heterodoxos, no entanto, recomendo aventurar-se pelos inacreditáveis pratos de barbatana de tubarão, tripa de porco, râ com nirá, porco com bambu (feito com pedaços de bambu mesmo, não com o broto) e barriga de peixe com jiló.
 
Mas o que realmente faz a minha cabeça é o cardápio, escrito num idioma próprio e curiosíssimo. Que tal “baba tana com barrica de pexie”, “jiró com nabu verde”, ou “macalão com camarrão”?"
 
Com "referências" como essa o restaurante instigava minhas expectativas há anos. Até que na viagem recente a amada e o casal de amigos Anderson e Isabela concordou em conhecer o Chi Fu. Chegamos às 15h30, de maneira que o local - costumeiramente lotado - estava praticamente vazio. Surpreendeu de cara pela bela decoração. Porém mal sentamos à mesa, um garçom (o único brasileiro - possivelmente cearense, mas não tive coragem de perguntar - entre cinco orientais) nos avisou que a casa não aceitava cartões nem de débito nem de crédito, apenas dinheiro em espécie. Mau começo, pois, em dinheiro vivo os quatro não havíamos levado quantia suficiente para comer e beber despreocupados. Anderson gentilmente foi ao Bradesco ali perto sacar dinheiro e enquanto esperávamos sua volta percebemos tanto o garçom (cearense?) quanto duas das garçonetes (que falavam entre si em mandarim, presumo) nos olhando de maneira desconfiada, como se não fôssemos fazer pedido nenhum.
 
Até que surgiu no ambiente uma garçonete, brasileira e falando português, que nos perguntou, sem muita simpatia, é preciso dizer, se faríamos algum pedido. Respondemos que estávamos esperando uma pessoa chegar para escolher e pedir. Ela pareceu ter aceitado a argumentação, mas, continuaram olhando esquisito para a gente. Anderson chegou e mesmo com o clima - e as garçonetes na mesa ao lado conversando de maneira bem alta em mandarim - e resolvemos pedir.
 
Pedimos três pratos: Um exótico camarão com carne moída e frango (!!!), a tradicional carne com legumes e o arroz chinês com verduras. A fama do local é merecida: a cada prato é suficiente para um batalhão e juntos entre si formam uma carrada de comida á mesa, mais do que dois casais aguentariam comer e do que o bom senso indica ingerir. Preços bem razoáveis, justificando a fama: Respectivamente os pratos custaram 45, 30 e 25 reais. Satisfizeram quatro pessoas e sobrou para mais duas ou três.
 
No final, o garçom (cearense?) já se mostrou mais simpático e nos trouxe como sobremesa melancia cortada em pedaços, de cortesia.
 
A comida atendeu todas as (altas) expectativas. Quanto ao tão falado mau atendimento, esperei ser, digamos, mais mal tratado do que fui. Frequentador do Beco da Lama, que sou, tenho traquejo na arte de ser atendido de forma estranha. Decepção por ter sido razoavelmente bem atendido? Quem sabe? Pode isso, Arnaldo?