Daniel Costa

12/06/2018
Não lembro de tamanho desânimo entre os torcedores brasileiros às vésperas de uma Copa do Mundo. Mesmo em anos mais duros, já era o tempo de se verem pessoas sorrindo vestidas com a camisa da seleção; ruas tomadas por bandeirinhas; e algumas calçadas pintadas de verde e de amarelo. 
 
A nada disso se assiste hoje. Afora um ou outro carro que trafega com a bandeira do Brasil - e ninguém sabe se é coisa de torcedor ou só do cidadão de bem com o seu ufanismo de araque - não existe indício de entusiasmo com o bom e velho soccer. 
 
Sim, amigos, certamente esse desalento ligado ao futebol tem relação com a bancarrota que tomou conta do país, com greves explodindo por todos os lados, crises e mais crises nascidas no seio do poder central, e uma turma insana pedindo a volta dos militares. De certo, não dá para se antenar muito no selecionado do Tite quando o salário não cai na conta, a gasolina sobe de preço e os produtos começam a escassear nas prateleiras dos supermercados. 
 
É bem possível que quando os jogos se iniciarem pra valer, o negócio mude de figura e a seleção brasileira volte a ser o tema número 1 do país. Afi-nal, até mesmo durante os anos de chumbo, os dissidentes políticos eram ca-pazes de deixar a peleja de lado e torcer pela equipe do Brasil. 
 
Mas, nesse momento, as pessoas querem mesmo é resolver os seus problemas imediatos e saber quais serão os candidatos à presidência da repú-blica, já que necessitam urgentemente de um alguém para chamar de salvador da pátria sem chuteiras. Na realidade, tenho a impressão de que a tal ausência de um messias é o que particulariza esse abatimento geral, até mesmo com relação ao futebol. 
 
O PT vai sustentar a candidatura de Lula ou lançará um novo nome aos 45 minutos do segundo tempo? A direita irá conseguir emplacar alguém ou se contentará com o inodoro Geraldo Alckmin? Depois que a grande im-prensa passar o seu rolo compressor de reputações, Bolsonaro e o vazio de ideias que lhe acompanha se aguentarão na parte de cima da tabela? Ciro Go-mes vem aí ou vai ficar no limbo, tipo aqueles times que não são rebaixados, mas também não conseguem vaga pra libertadores? Ou diante desse cenário de incertezas e descrenças a turma do capital vai mesmo é bolar uma estraté-gica saída para baixo, tal como o Leão da Montanha, e organizar eleições indi-retas ou alguma coisa do gênero, que ponha no saco de lixo os últimos vestí-gios do que resta da democracia tupiniquim?  
 
Bom, diante dessas dúvidas, talvez seja melhor mesmo começar a tor-cer pelo escrete canarinho. Para o bem ou para o mal, as suas vitórias trazem sempre algum alento. E, no mais, atualmente, certeza mesmo só se tem uma: a de que a Copa do Mundo vai acontecer.