Valério Mesquita

12/04/2018
Tudo começou, contou-me José Inácio Neto, macaibense da gema, já falecido, com a ida a Recife dos comerciantes Neco Alves e Joca Leiros, em 1947. Lá se entrevistaram com uma vidente, de nome Baiana, que previu inúmeras tragédias para a estreita e pequena rua do Cajueiro, na cidade de Macaíba. Registre-se que a médium não conhecia a cidade. A primeira sucedeu com o fabricante de fogos de artifício Seu Galdino, em 18 de junho de 1921, e avô paterno de minha mãe Nair de Andrade Mesquita. Consta que a sua fabriqueta explodiu com tanta intensidade que o projetou na rua. Veio a falecer dois dias depois, após receber a extrema unção do sacerdote com a confissão curiosa: “Padre, fiz tudo, só não fiz roubar”. Na mesma rua do Cajueiro, que hoje se denomina Baltazar Marinho, outra desgraça aconteceu quando Pedro Cancão matou a mulher com várias cutiladas de faca peixeira. Esse crime também abalou a cidade.
 
Pouco tempo depois, uma cunhada de João do Mercado suicidou-se ateando fogo às vestes. João era conhecido comerciante que negociava no primeiro mercado público da cidade, construído em 1920. O quarto episódio fatal da rua ocorreu com a sobrinha de Severino Aleixo, de nome Helena, que igualmente morreu queimada, atingindo também o primo Milton Pereira dos Santos, que ficou bastante ferido. O quinto funesto acontecimento sucedeu com um garoto de 13 anos chamado Gonçalo, filho de D. Adélia, pessoa bastante estimada em Macaíba. A causa da morte foi suicídio e o comentário de José Inácio de Souza Neto, Zezinho, nosso historiador local, é de que o menino sofria das faculdades mentais.
 
Mais um desastre, e o sexto, para confirmar o vaticínio da pitonisa pernambucana, atingiu a mulher de vida livre, mas difícil, apelidada de Milu. Potentes razões passionais fizeram a inditosa amante da vida suicidar-se com álcool e fósforo. Evidentemente outros registros de mortes violentas devem ter ocorrido depois, na rua do Cajueiro, que desemboca nas Cinco Bocas, ponto nervoso da cidade onde se localiza a central de boatos políticos e da vida alheia. Mas, naqueles idos de quarenta e cinquenta nem só de “sinistroses” viveu a ruazinha. Ela teve seus momentos alegres na época junina com lapinhas, pastoris, fandangos capitaneados por Chico Benedito, dono de um carrossel, além de Luís Cocó, emérito chamador de pedras de jogos de víspora, que gostava de gargalhar a cada número anunciado. Haja fôlego! 
 
Na rua Dr. Francisco da Cruz, a Macaíba dos velhos tempos se enfeitava, no carnaval das Cinco Bocas, até a casa de Alfredo Mesquita, entapetada de serpentina, obra de José Inácio e Oto Feitosa. O lírico e o romântico davam o toque provinciano à cidade. Os antigos namorados viviam os alumbramentos do namoro e das paixões adormecidas. Narra Zezinho que nunca esqueceu a imagem do tabelião Cornélio Leite adornando a sua paquera Adelina com serpentinas e confetes. Um universo perdido, mas de comovente ressurreição.
 
Transcorria o mês de maio na pacata e provinciana Macaíba de 1935, contou-me o saudoso memorialista José Inácio Neto (Zezinho). Ele foi testemunha ocular daqueles dias onde na rua João Pessoa, no centro, instalava-se a Alfaiataria Estética, do alfaiate e pastor evangélico Pedro Dantas, que tinha dois filhos: Silas e Esdras. Administrava o município pela primeira vez, o prefeito Alfredo Mesquita Filho. Aqui e acolá os convescotes da cidade se sucediam. No Café Gato Preto, o vento leste do rio Jundiaí trazia rumores de tiroteios em Natal. Paulo Teixeira, eterno apaixonado de D. Belinha, Santos Lima e outros atribuíam os disparos aos folguedos da celebração da festa de Santa Luzia, logo contestado por católicos de plantão com relação à data festiva da santa.
 
Escoadas as inquietantes 48 horas do movimento, na terça-feira, Macaíba voltou paulatinamente à normalidade. Os moradores retornaram do “exílio” dos sítios e lugarejos. Apenas, alguns comentários perduraram nas rodas da cidade. Primeiro, o célebre buraco de Tutu foi fechado por Paulo Bulhões, de ordem do prefeito, que lamentou, depois, o fato de nenhum comunista nele não haver desabado; na cadeia pública, onde os movimentos de 35 instalaram o seu “quartel general”, foi achado dinheiro escondido até nas privadas. O próprio Zezinho, movido pela curiosidade, fez uma fezinha e prospecção nas escavações das trincheiras comunistas; e, por fim, o prefeito que não foi, o alfaiate Pedro Dantas passou a ser conhecido mais como comunista do que alfaiate e evangélico. Sem falar no hilário caso de sua cunhada que namorava José Chinês, tipo popular e irmão do soldado Joaquim de Juvêncio, que se despiu na rua debatendo-se com uma pulga comunista e radical que lhe penetrou no saco escrotal, picando-o por várias horas. Segundo Zezinho, esse foi o saldo da intentona em Macaíba.
 
Tudo começou, contou-me José Inácio Neto, macaibense da gema, já falecido, com a ida a Recife dos comerciantes Neco Alves e Joca Leiros, em 1947. Lá se entrevistaram com uma vidente, de nome Baiana, que previu inúmeras tragédias para a estreita e pequena rua do Cajueiro, na cidade de Macaíba. Registre-se que a médium não conhecia a cidade. A primeira sucedeu com o fabricante de fogos de artifício Seu Galdino, em 18 de junho de 1921, e avô paterno de minha mãe Nair de Andrade Mesquita. Consta que a sua fabriqueta explodiu com tanta intensidade que o projetou na rua. Veio a falecer dois dias depois, após receber a extrema unção do sacerdote com a confissão curiosa: “Padre, fiz tudo, só não fiz roubar”. Na mesma rua do Cajueiro, que hoje se denomina Baltazar Marinho, outra desgraça aconteceu quando Pedro Cancão matou a mulher com várias cutiladas de faca peixeira. Esse crime também abalou a cidade.
 
Pouco tempo depois, uma cunhada de João do Mercado suicidou-se ateando fogo às vestes. João era conhecido comerciante que negociava no primeiro mercado público da cidade, construído em 1920. O quarto episódio fatal da rua ocorreu com a sobrinha de Severino Aleixo, de nome Helena, que igualmente morreu queimada, atingindo também o primo Milton Pereira dos Santos, que ficou bastante ferido. O quinto funesto acontecimento sucedeu com um garoto de 13 anos chamado Gonçalo, filho de D. Adélia, pessoa bastante estimada em Macaíba. A causa da morte foi suicídio e o comentário de José Inácio de Souza Neto, Zezinho, nosso historiador local, é de que o menino sofria das faculdades mentais.
 
Mais um desastre, e o sexto, para confirmar o vaticínio da pitonisa pernambucana, atingiu a mulher de vida livre, mas difícil, apelidada de Milu. Potentes razões passionais fizeram a inditosa amante da vida suicidar-se com álcool e fósforo. Evidentemente outros registros de mortes violentas devem ter ocorrido depois, na rua do Cajueiro, que desemboca nas Cinco Bocas, ponto nervoso da cidade onde se localiza a central de boatos políticos e da vida alheia. Mas, naqueles idos de quarenta e cinquenta nem só de “sinistroses” viveu a ruazinha. Ela teve seus momentos alegres na época junina com lapinhas, pastoris, fandangos capitaneados por Chico Benedito, dono de um carrossel, além de Luís Cocó, emérito chamador de pedras de jogos de víspora, que gostava de gargalhar a cada número anunciado. Haja fôlego! 
 
Na rua Dr. Francisco da Cruz, a Macaíba dos velhos tempos se enfeitava, no carnaval das Cinco Bocas, até a casa de Alfredo Mesquita, entapetada de serpentina, obra de José Inácio e Oto Feitosa. O lírico e o romântico davam o toque provinciano à cidade. Os antigos namorados viviam os alumbramentos do namoro e das paixões adormecidas. Narra Zezinho que nunca esqueceu a imagem do tabelião Cornélio Leite adornando a sua paquera Adelina com serpentinas e confetes. Um universo perdido, mas de comovente ressurreição.
 
Transcorria o mês de maio na pacata e provinciana Macaíba de 1935, contou-me o saudoso memorialista José Inácio Neto (Zezinho). Ele foi testemunha ocular daqueles dias onde na rua João Pessoa, no centro, instalava-se a Alfaiataria Estética, do alfaiate e pastor evangélico Pedro Dantas, que tinha dois filhos: Silas e Esdras. Administrava o município pela primeira vez, o prefeito Alfredo Mesquita Filho. Aqui e acolá os convescotes da cidade se sucediam. No Café Gato Preto, o vento leste do rio Jundiaí trazia rumores de tiroteios em Natal. Paulo Teixeira, eterno apaixonado de D. Belinha, Santos Lima e outros atribuíam os disparos aos folguedos da celebração da festa de Santa Luzia, logo contestado por católicos de plantão com relação à data festiva da santa.
 
Escoadas as inquietantes 48 horas do movimento, na terça-feira, Macaíba voltou paulatinamente à normalidade. Os moradores retornaram do “exílio” dos sítios e lugarejos. Apenas, alguns comentários perduraram nas rodas da cidade. Primeiro, o célebre buraco de Tutu foi fechado por Paulo Bulhões, de ordem do prefeito, que lamentou, depois, o fato de nenhum comunista nele não haver desabado; na cadeia pública, onde os movimentos de 35 instalaram o seu “quartel general”, foi achado dinheiro escondido até nas privadas. O próprio Zezinho, movido pela curiosidade, fez uma fezinha e prospecção nas escavações das trincheiras comunistas; e, por fim, o prefeito que não foi, o alfaiate Pedro Dantas passou a ser conhecido mais como comunista do que alfaiate e evangélico. Sem falar no hilário caso de sua cunhada que namorava José Chinês, tipo popular e irmão do soldado Joaquim de Juvêncio, que se despiu na rua debatendo-se com uma pulga comunista e radical que lhe penetrou no saco escrotal, picando-o por várias horas. Segundo Zezinho, esse foi o saldo da intentona em Macaíba.