Nicole Tinôco

05/12/2017
Minha ideia hoje era mudar um pouco o enfoque. Por isso, pensei em duas possibilidades: retomar um pouco a narrativa inicial, textos mais literários, uma coisa mais poética, leve... ou até mesmo passar a abordar um assunto extremamente necessário a ser debatido em nosso Estado: a situação dos servidores/sofredores do Rio Grande do Norte.  - Alô grande imprensa!!  Tem muita “pauta” para vocês, viu!? A Ocupação da Assembleia Legislativa do Estado por servidores em que reivindicam salários atrasados, Detran/RN em greve... Ah meu Detran, meu sofrido e esquecido Detran (sou servidora do órgão e regresso hoje após 10 dias de férias, diretamente para greve). À luta companheiros! 
 
Apesar do disso, ficou em mim uma frase que escutei de um colega ontem: “Jornalismo não funciona assim”. Ainda que exista uma intenção natural de determinar programação, traçar uma agenda... jornalismo surge, brota, grita. E o grito que ecoa na minha cabeça, nas minhas redes sociais e reais, no meu coração, continua sendo o grito das mulheres!
 
- Mas Nicole, você vai insistir nesse assunto, sua coluna vai ficar cansativa, não tem outro assunto para tratar? Olhe, essa coisa de feminismo tá te subindo a cabeça, as mulheres estão muito bem viu, só dá elas...
 
Será? Será que estamos “tão bem assim”, se estivermos, viva. Voltarei a contar “histórias da carochinha”, mas por hora o que trago para vocês são manchetes, dados, números, locais e nacionais:
 
 “Após 2 anos, ex-namorado que matou dançarina será julgado por feminicídio em SP” (05/12/2017 - Globo.com)”
“Mãe é morta a tiros e filhos baleados dentro de casa em Ceará-Mirim, RN” (G1RN/InterTV Cabugi)
 
“Eleonora Menicucci: A Pec 181 Vai colocar as mulheres no calabouço - para a ex-ministra a aprovação da PEC 181 fará o país retroceder para a década de 1940. (Portal Saiba Mais).
 
“Curvando-se aos novos tempos, a monarquia britânica aceita uma plebeia de ascendência negra e divorciada como noiva do príncipe Harry”.  
 
Aceita, não é mesmo Istoé Revista? Porque só “goela abaixo”, para uma mulher, plebeia, e ainda com raízes negras poder se dar ao luxo de casar. Só “aceitando” a força. Em tempo, que progressista, a monarquia Inglesa. Permite que uma mulher se case. (Impressionada).  E nós aqui no submundo latino ousando problematizar a violência contra mulher. Palmas ao primeiro mundo inglês!
 
Obviamente que tive que “descer a página”, essas notícias não são manchetes, não estão em destaque. Ficam ali, no rodapé da página, quase que imperceptíveis, moram em um lugar no qual tão somente olhos interessados enxergam. Ou talvez aqueles olhos que necessitam partilhar e conhecer dores parecidas com as suas. Mas para que falar de mulheres, não é mesmo Brasil. É melhor falar de Lula. Impedi-lo de se candidatar. Quantas visualizações isso gera. Cabe aqui também a ressalva de que só pude encontrar essas quatro míseras manchetes após uma pequena e direcionada pesquisa.  Em apenas um desses veículos supracitados, a questão da mulher era destaque. Tendo a deduzir que isso se dá pelo fato de ser o único de esquerda, partidarismos à parte. O fato é que, nos demais portais digitais, fui obrigada a “descer a página”. Falar de mulher não é interessante, a violência de gênero é banalizada, comum, cotidiana.  É melhor falar de Lula, né? Existem inúmeros fatos novos. Se falou muito pouco nesse cidadão brasileiro nos últimos anos. A manchete de hoje é que vão impedi-lo de se candidatar, óbvio, é premente à necessidade de divulgar a notícia de que seu julgamento será em segunda instância. Claro que com destaque à cereja do bolo. O julgamento deve/tem que acontecer antes da campanha. Essa informação não pode sair da agenda da mídia tradicional hoje, tampouco das cabeças, para que possamos continuar batendo as “eficazes panelas” né? Afinal, “a culpa é do PT!”. Aécio, Henrique Alves e Eduardo Cunha que o digam.
 
Mas voltemos às mulheres, afinal, política é a pauta comum da nação. Em veículos, todos eles, “ela” está lá. Acho que só assim para uma palavra antecedida por um artigo definido de gênero feminino ter tanta notoriedade, “A política”. Seria ótimo se “ela” fosse realmente um ser animado, quem sabe assim nós mulheres teríamos muito mais vez, manchetes e vozes. Mas se não temos espaços, buscaremos. Como sabiamente nos ensinou em um encontro de mulheres semana passada ex-ministra Eleonora Menicucci, ocupemos todos os espaços, os que nos permitirem e os que tiverem que nos engolir.  Eis aqui um espaço ocupado por mulheres. Dos colunistas deste Portal Potiguar Notícias, temos, que eu me lembre rapidamente, 4 mulheres entre 10 (é um ótimo número, vamos lutar pela paridade), sem contar com os programas protagonizados por mulheres da PN/TV. Aproveito e convido vocês a iniciar comigo outro projeto, iniciaremos semana que vem um programa em nossa TV digital e os detalhes virão, na programação diária e redes sociais.  
 
É esse o recado que deixo aqui a nós mulheres, à imprensa alternativa e aos homens que se propõem a combater a cultura do machismo, os que se consideram em desconstrução: busquem, divulguem e produzam conteúdo voltado às mulheres. Somos uma minoria que necessita de atenção e ocupação de espaços reais e virtuais. Hoje é um dia de luta e as mulheres estarão lá. Convido a todXs a somar ao nosso movimento suprapartidário de mulheres contra a PEC 181 que criminaliza o aborto que, ao nosso ver, representa um retrocesso na questão de saúde pública, representando um enorme risco à vida das mulheres. 18 homens não podem decidir os rumos e opções que só às mulheres cabem opinar. #TodasContra18. (Inclusive estou em dívida com vocês em relação a uma abordagem mais cuidadosa sobre essa temática, não esqueci).
 
Para finalizar, termino com uma frase de uma atriz global, para nos despirmos de todo e qualquer preconceito. Muito embora não concorde com muitas de suas colocações ela é hoje militante como Defensora para Prevenção e Eliminação da Violência Contra as Mulheres da ONU  e tem se intitulado como “feminista desde criancinha”, mesmo reconhecendo ter levado muito tempo para entender isso. “Eu era feminista e não sabia. Defendo direitos iguais, equidade entre os gêneros. Continuo acreditando no amor, no romance, na magia, no lúdico, mas isso não pode significar que a mulher seja considerada inferior ao homem.”  Juliana Paes, atriz. 
 
É isso, se reconheçam como feministas e não temam críticas, elas virão. Inegavelmente. Mas o que importa é não perdermos o foco e seguirmos em luta, unidas! Vamos Juntas!