Vássia Silveira

14/11/2017
Esta semana me pus a pensar no amigo. Não sei se por saudade ou inquietação, deixei que sua voz entrasse na sala enquanto eu lia um trecho de poema que a memória foi incapaz de reter. 
 
Na última vez que nos encontramos – dois náufragos à procura de uma faixa de terra, com sombra, água e algum alimento pra sustentar a carne –, ensaiávamos o fim da história. Aquela que começou como um romance de quinta categoria e terminou como terminam todas as histórias escritas sem alma. 
 
Era domingo. E domingo, quase sempre, chega trazendo um pouco de tristeza. 
 
Agora, no meio da sala, a voz rouca e zombeteira me conta das cores usadas no último esboço: um emaranhado de traços cinza pontuando a urgência de adeus. Ouço-a com atenção, e num gesto que mistura calma e intranquilidade, estendo-lhe as nervuras da folha que guardei no livro da Ana C. 
 
Gosto dela. E o poema onde hoje repousa a folha do jequitibá-rosa me acompanha desde a adolescência, quando eu ainda acreditava que era possível me desvencilhar das tristezas que entram sorrateiras no coração. 
 
Foi em um domingo que caminhamos rodeados de jequitibás. A estrada de terra era íngreme e levantava poeira quando os carros passavam velozes. Nós ríamos. E pelo menos naquela manhã, fizemos algum esforço para esquecer o que de fato nos unia: a atração por ilhas e a segurança das águas salinas que as mantêm separadas. 
 
Ah, essa distância entre os vultos e os ossos! Confesso que dela nasceram alguns poemas. E isso me encheu de gratidão. “Comigo aconteceu o mesmo”, penso ter ouvido sussurrar a voz que ocupava, então, o centro da casa. 
 
(Levantei os olhos. E por alguns instantes, tive a sensação de que meus navios atracavam na baía instalada na retina do amigo).
 
No andar de baixo, a vizinha deixa cair uma travessa de vidro. Os cacos, suponho, espalham-se pela cozinha. Ponho-me a imaginar o trabalho conjunto da vassoura e a pá. Terá ido ao chão também o almoço? 
 
Um susto, e a sala retorna ao seu silêncio de paz.