Andrezza Tavares

12/11/2017
Autores:
Adir Luiz Ferreira
(Prof. Dr da UFRN)
Andrezza Maria Batista do Nascimento Tavares
(Prof. Dr do IFRN)
Fábio Alexandre Araújo dos Santos
(Prof. Dr do IFRN)
 
Há uma profusão de artigos e pesquisas que destacam os aspectos especialmente estatísticos, como o enorme crescimento das matrículas na educação superior no Brasil, que, de menos de 4 milhões em 2003 passou para 7,3 milhões em 2013. Apesar desse claro aumento no alcance da educação superior, o percentual da população de 18-24 anos que frequentava o ensino superior em 2013 era de 3,7 milhões (cerca de 16,5%), segundo dados do IBGE/PNAD (2013), o que significava que 83,5% da juventude brasileira na idade teoricamente adequada para cursar esse nível de ensino (22,7 milhões de pessoas) continuava sem acesso à educação superior. Além disso, nessa mesma década, a evolução no acesso ocorreu sobretudo direcionada para os estabelecimentos privados, entre os quais apenas um pequeno número de universidades apresentava bom padrão de qualidade acadêmica de ensino e pesquisa, sendo a maioria guiada quase unicamente por metas mercadológicas de rentabilidade, não obstante detinham naquele ano 74% das matrículas do ensino superior.
 
O problema da assimilação das pessoas das classes populares no ensino superior público está nas próprias dificuldades progressivas desse percurso de sobrevivência escolar: possibilidade real de acesso, permanência com aprendizagem significativa, formação com boa perspectiva profissional. O almejado sucesso na universidade pública é expresso na obtenção do diploma de um curso superior, como o símbolo cultural da superação social, sem que isso signifique necessariamente boa qualidade de aprendizagem e formação. Para quem chega à cerimônia de formatura, repete-se e reafirma-se a ambivalência discriminatória das desigualdades sociais, porque concluir um curso superior se mantém sob a imagem moral do universitário que é um herói sobrevivente das classes populares. Mesmo sendo um diploma de cursos de baixo prestígio social, ele é simultaneamente o símbolo da glória do reconhecimento cultural e do estigma da insuficiência material que não permitiu uma melhor formação.
 
Já nos anos de 1960, Pierre Bourdieu destacava a falta de uma análise sociológica do que procurava se ocultar nas transformações que ocorriam no sistema de ensino superior na França, quando diante da “democratização” no recrutamento da população universitária se encobria uma continuidade no padrão da desigualdade das oportunidades de acesso à universidade, acentuada, de fato, por uma especialização social das faculdades. Concluía, sobre essa orientação desviante da “democratização” das oportunidades: “mais se desce na hierarquia social e mais o acesso ao ensino superior deve ser pago por restrição das escolhas indo para as categorias mais desfavorecidas até a relegação pouco mais ou menos obrigatória aos alunos de letras ou de ciências” (BOURDIEU, 2012, p. 263). 
 
Para o quadro brasileiro mais recente de “democratização” do acesso à universidade, também se observa essa mesma especialização social de muitos cursos superiores, considerados mais acessíveis aos alunos das escolas públicas e de origem popular, em especial nos cursos voltados para a formação de professores. O outro lado desse “elitismo” às avessas, porque esses estudantes seriam os últimos sobreviventes da exclusão social que conseguiram escapar das formas reprodutoras da desigualdade escolar, é a ilusão ou a promessa não cumprida de uma ação governamental de inclusão social através de um diploma superior de boa qualidade acadêmica e profissional, como se propunha a ser o PROUNI-Programa Universidade para Todos. Esse programa de massificação acelerada do ensino superior visava dar condições de acesso ao ensino superior para as camadas mais pobres, como política pública de “democratização”, através da concessão de bolsas integrais ou parciais para o ensino privado (considerado com mais condições de rápido atendimento à demanda), com a retórica da justiça social favorecida pela inclusão na escolaridade avançada. 
 
Nesse cenário social mais amplo, mesmo valorizando o esforço para o ingresso e o desempenho dos estudantes de classes populares na universidade pública, a visão de professores e gestores das políticas públicas ainda se guia por um paradigma elitista e, portanto, excludente e profundamente meritocrático. É a afirmação do paradoxo da universidade pública, mas não democrática, isto é, não estar aberta e organizada para incorporar compreensivamente em suas práticas acadêmicas as desigualdades sociais e culturais entre os jovens que chegam ao ensino superior. Mesmo tendo sido criados programas de discriminação positiva para o acesso às universidades, como cotas raciais e avaliação diferenciada para alunos das escolas públicas, após o ingresso há poucas instâncias efetivas de apoio e acompanhamento dos estudantes de origem popular. Assim, as barreiras sociais e os obstáculos acadêmicos são legitimados e até valorizados, inclusive por aqueles que sofrem com as formas cotidianas de exclusão social no sistema universitário brasileiro. 
 
Mesmo que os filhos das classes populares obtenham mais valor econômico e cultural com diplomas “menores” do ensino superior, outrora mais difíceis, é com essa segregação escolar tendencial para os estudantes de baixa renda, destinando-lhes preferencialmente os cursos com os mais baixos valores de inserção profissional no mercado de trabalho, que é possível conciliar “democratização” do acesso ao ensino superior com a reprodução relativa das posições na hierarquia social. É para o estudo desse quadro de reprodução das desigualdades sociais, garantida através da manutenção das desigualdades de acesso aos recursos materiais e simbólicos conferidos pelos diplomas e títulos escolares, que Bourdieu propõe uma definição sociológica para as noções de capital social e capital cultural.
 
REFERÊNCIAS
 
BOURDIEU, Pierre. Le capital social: notes provisoires. Actes de la recherche en sciences sociales, Paris, v. 31, janvier-1980.
BOURDIEU, Pierre. Les trois états du capital culturel. Actes de la recherche en sciences sociales, Paris, v. 30, novembre-1979.
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. La reproduction: éléments pour une théorie du système d’enseignement. Paris: Les Éditions de Minuit, 1970.
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. Les héritiers: les étudiants et la culture. Paris: Les Éditions de Minuit, 1964.
FERREIRA, Adir L. Socialização na universidade: quando apenas estudar não é o suficiente. Educação em Questão, Natal, v. 48, n. 34, jan./abr., 2014.
IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/PNAD-Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio 2013. Disponível em: http://ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2013/brasil_defaultxls_brasil.shtm (Acesso: 07/09/2015)
PAIVANDI, Saeed. A relação com o aprender na universidade e o meio ambiente de estudos. Educação em Questão, Natal, v. 48, n. 34, jan./abr., 2014.