Cefas Carvalho

05/10/2017

Assisti "Persépolis" em 2010, com os filhotes Pedro e Ananda. Os três nos encantamos com a animação da franco-iraniana Marjane Satropi e sua autobiográfica jornada da infância à vida adulta, em meio a um Irã tomado pela "Revolução islâmica". Na trama, a menina Marjane na transição para a adolescência sofre com a repressão sexual-social-cultural dos aiatolás e fanáticos/as afins que patrulham a protagonista e suas amigas de ouvirem "musica lico ocidental" como Bee Gees e Ramones. Lembro que Ananda ficou impactada com essa cena e me perguntou como da liberdade vista nas primeiras cenas (o Irã governado pelo liberal Reza Pahlevi) a sociedade mergulhou no obscurantismo. Respondi à época que não acontecia do dia para a noite, era um processo gradual, ainda que parcialmente invisível.

Isso foi em 2010. Hoje, em 2017, recordo da animação, da conversa com minha filha e percebo que estamos adentrando este processo gradual, sutil, lento, de sociedade policialesca, patrulhadora, tal qual no Irã de Persépolis. Tal como em outras sociedades e como pode ser visto em romances como "1984", "Fahreiheit 451" e "Admirável Mundo novo".

Exagero meu? Talvez. Na verdade, queria estar alarmado sem razões. Contudo, este ano de 2017 está farto em exemplos de que existe, sim, um grupo organizado, respaldado por setores influentes da sociedade e que conta com apoiadores "inocentes úteis" que visa privar a liberdade de expressão, a liberdade artística sob o manto tenebroso daquele conceito "defesa dos valores morais".

Há pouco mais de um mês estourou o caso da exposição QueerMuseu, no Santander Cultural em Porto Alegre, na qual obras "que incentivavam a pedofilia e zoofilia" estavam expostas. Há uma semana, o caso do artista nu em performance no MAM< em São Paulo, acusado também de pedofilia. Entre uma e outra, outras histórias de intolerância e cerceamento de direitos, incluindo neste pacote, traficantes evangélicos (!!!!!!) que obrigaram uma mãe de santo a destruir seu próprio terreiro no Rio de janeiro.

Claro que com pastores evangélicos picaretas e políticos obscurantistas não há o que debater. Muito menos com haters de internet e radicais como os que apoiam o MBL. O problema é que parte da sociedade de perfil mais progressista e tolerante "comprou" a narrativa de que existia "pedofilia" na performance e na interação da criança com o ator, ou que os museus estão mostrando muita "pornografia" atualmente.

Desnecessário afirmar que estas opiniões e argumentos são usados justamente por quem não vai a museus ou a qualquer tipo de equipamento cultural.

Mas a perda da narrativa e migração de parte da sociedade para, digamos, o lado do obscurantismo é justamente o que preocupa. Porque foi assim que aconteceu tanto na Alemanha de Hitler como no citado Irã da Revolução Islâmica.

Nos exemplos citados, temos um grupo no poder que arregimenta pessoas para decidirem o que "é ou não é arte". O que é "belo" e o que é "lixo". Que tipo pode arte pode ou não ser feita.

E hoje no Brasil, a julgar pelas redes sociais e movimentações, está acontecendo igual. Um número x de pessoas acredita que y ou z não é arte, portanto deve ser banida. Pior: candidato a presidente afirmando em rádio que deveria-se fuzilar o curador da mostra "de pedofilia e zoofilia". Um deputado federal dublê de pastor evangélico quer a prisão do ator que estava nu na performance no Museu.

Fico impressionado como tanta gente não vê a imensa gravidade disso.

Hoje é a arte que incentiva "pedofilia" e o "ator nu". Amanhã é a aquele filme com cena de sexo entre dois homens. Depois de amanhã, um beijo mais tórrido incomoda a ou b. Mais à frente, filmar uma cena com jovens usando drogas será vista como "apologia". Então, se instalará, por fim, a censura de volta no Brasil, bem condizente com quem quer a volta da Ditadura Militar, disfarçada de "intervenção".

E claro que  - como Alemanha, como Irã - esse pudor todo com pornografia e "arte degenerada" é mais jogo de poder do qualquer outra coisa. Comno tanta gente já perceber e se manifestou, o problema não é com as "nossas crianças", mas com nudez, com políticas LGBT, com liberdade sexual. com questionamentos.

Enfim, claro que pintei neste texto o pior dos mundos possíveis. Mas, no Brasil pós-Golpe podemos esperar de tudo. Inclusive uma versão tropical da "Revolução Islâmica", com os "cidadãos de bem", que, deduzo, devam ser os meninos do MBL + bancada evangélica + cristãos conservadores + saudosos da ditadura militar, a nos dizerem que arte devemos ou não ver.