Daniel Costa

08/08/2017
Entre o fim dos anos 50 e o início da década de 60,  a palavra "Bossa" surfava na crista da onda. Tudo naquela época era "Bossa". Do presidente da República às canções de Jobim, Vinícius  e João Gilberto, alcançando eletrodomésticos, óculos e calçados. "Bossa" era palavra de inegável positividade, que refletia o momento de um Brasil alegre, promissor, com respeitáveis índices de crescimento industrial e campeão da Copa do Mundo. "A taça do mundo é nossa"; "Cinquenta anos em cinco". Essas eram as bandeiras que animavam os brasileiros diante de uma perspectiva de progresso inigualável que se alinhava junto ao horizonte do país. 
 
A palavra saiu da moda e deu lugar a outras tantas que subiram e desceram no pedestal da preferência dos nacionais.  Hoje, a  expressão da vez é "fora". Segundo a enciclopédia e dicionário Koogan/Houaiss, "fora" significa "Na parte exterior, na face externa. Em outro local que não aquele em que habitualmente se reside. Voz áspera para expulsar alguém do recinto, vaiar ou patear discurso político, etc. Erro grosseiro; fiasco; recusa". A palavra "fora", portanto, carrega consigo um caráter negativo, dando o tom pessimista dos tempos atuais e refletindo o desengano que circunda a vida dos cidadãos destes trópicos.
 
Também é possível perceber nessa expressão, por sua vez, uma chispa revolucionária, algo parecido com um grito de guerra.  O "diretas já" dos anos 80, ou o "é proibido proibir" de maio de 68. Uma espécie de chama anárquica que flutua no subconsciente das pessoas, aguardando a fagulha que irá transformá-la em ação real, num verdadeiro chute de escanteio no status quo. 
 
É essa a ideia de mudança que se pode perceber no atual "Fora!" dos brasileiros, que se faz bem acompanhar de um ponto de exclamação. É o "Fora Temer!", o "Fora Dilma!", o " Fora corrupção!" , o "Fora violência!". O "Fora!", nesse sentido, desenha um sentimento pungente de desejo de mudança, reflexo de um tempo de fratura social. Ele trata das desilusões e dos anseios políticos e econômicos dos últimos tempos, e também do niilismo que assalta os homens comuns. 
 
Essa palavra, portanto, é uma espécie de fio condutor que une a população em todas as suas diferenças sociais, culturais e políticas, deixando claro que, apesar de ninguém saber muito bem qual o caminho a ser seguido,  todos sabem que é preciso mudar. Por isso, o grito é uníssono: Fora!