Cefas Carvalho

31/07/2017

Última Saída Para o Brooklyn, tradução de Eduardo Francisco Alves para a Editora Record do clássico barra-pesada de Hubert Selby Jr publicado em 1964, é um dos livros que mais me impactaram. Tanto pelo conteúdo (desajustados, marginais, prostitutas, gays, travestis, operários em um dos bairros mais pobres e violentos de Nova York) como pela forma (linguagem crua, não convencional, com amplo uso de neologismos e termos chulos).

O curioso é que li o romance em 2002, muitos anos após assistir ao filme baseado na obra, traduzido no Brasil como Noites Violentas no Brooklyn. Já achara o filme estranho, distanciado do drama interno que seus personagens viviam. Cenas impactantes, mas sem “alma”. Ao ler o livro, um colosso, a decepção com o filme e seu diretor, o alemão Uli Edel, foi grande.

O primeiro equívoco está no visual. O filme tem um glamour estético que o romance jamais evoca. A prostituta Tralala, por exemplo, no romance é descrita como vulgar, decadente. No filme, a boniteza de Jennifer Jason Leigh não ilustra tal descrição. Idem em relação aos desajustados, que no filme parecem saídos de Grease.

Certo, as cenas são violentas. Mas, muito menos do que são no livro. No filme, a câmera parece “fugir” da violência, enquanto no livro todos os detalhes são esmiuçados, as vísceras expostas. Na verdade, Uli Edel parece errar a mão na descrição de mundos sórdidos. Seu filme anterior Eu, Christiane F. baseado no best-seller homônimo que marcou uma geração, é muito aquém do material do livro.

Edel peca pela frieza  – que em Brooklyn jamais se percebe, pelo contrário, o livro é escrito com paixão, tudo nele parece se incendiar  – e por uma visível falta de empatia com os personagens marginais e destroçados dos seus filmes. Pasolini, Fassbinder, Polanski conseguem mostrar empatia e piedade pelos mais baixos personagens, e isso se reflete no resultado final.

Em algumas das cenas, Edel e os roteiristas simplesmente trucidam a ideia original de Selby. Como na famosa cena de estupro coletivo de Tralala, no filme, ela conta com a simpatia de um rapaz e um abraço entre os dois fecha a cena. Que simplesmente não existe no livro, que não tem nenhum piedade dos personagens, quando Tralala após estuprada e agredida é abandonada semimorta. Selby é impiedoso com seus personagens, Edel tem medo de levar a coisa até o final, o que Gaspar Noé de Irreversível, jamais teria.

Outra covardia na hora em transpor o texto para a tela está nas cenas envolvendo gays e travestis. No filme, as relações (sexuais, sentimentais e financeiras) deles/delas com Harry Black e os rapazes da gangue são superficiais, caricatas, enquanto no livro são descritas de maneira detalhista e crua, gerando credibilidade para os caracteres e situações.

Em suma, leia o livro, se tiver estômago. Mas, de uma forma ou de outra, evite o filme.