Cefas Carvalho

23/07/2017

Todo cinéfilo que se preze sabe, na prática, que existem filmes que “não envelhecem” e filmes que simplesmente “envelhecem mal”. Os primeiros são aqueles que parecem ter sido filmados ontem, de tão “atuais” que parecem ser. Isso com obras filmadas nos anos 1930, 40, 50. São filmes que ainda têm relevância temática e estética e que influem de maneira relevante no cotidiano e na Cultura de Massa.

Os segundos, são aquelas películas que, de alguma forma, seja nas cores, nas interpretações, no estilo narrativo, na própria aura, parecem datados, como se feitos há mais tempo do que na verdade foram produzidos. Algo neles parece não soar como deveria ou como soou quando filmados e apreciados pelo grande público. Perceba-se que não discuto a qualidade dos filmes. Um longa pode ser excelente e ao mesmo tempo “envelhecer mal”. E vice-versa.

Mas, vamos dar nomes aos bois (ou aos filmes). Recentemente revi dois dos que são quase unanimidade na primeira lista: Casablanca e O Poderoso Chefão. O primeiro, datado de 1943, é um colosso do Cinema: roteiro brilhante, cheio de nuances e com sacadas impressionantemente modernas; direção segura, atores carismáticos, ambientação perfeita. Os diálogos dos personagens, cheios de duplo sentido e malícia, parecem ter sido escritos semana passada. O Rick´s Bar parece aquele local sofisticado que frequentamos quando em viagens a lugares exóticos.

Já The Godfather, título original do clássico de Coppola, é de 1972 e não carrega o “ranço” que muitos filmes dos anos 1970 têm (ainda que a história se passe anos antes e a parte 2 remeta até aos anos 1940). Diálogos funcionam, interpretações mais ainda e o Corleone de Brando ainda hoje é referência. Além de que o filme – sucesso de bilhetreria – hoje tem status quase cult.

Já entre os filmes que sofrem o desgaste do tempo, há muitos. O que mais me chama a atenção é E o Vento Levou, que assisti pela primeira vez aos 12 anos impactado com a grandiosidade do longa. Anos depois, revendo o épico de tantos diretores, percebe-se nele um ar de “envelhecido”. Curiosamente outros filmes do mesmo ano, 1939, como No Tempo das Diligências e A Mulher Faz o Homem, não sofreram tanto com o tempo.

Alguns épicos parecem irremediavelmente datados, apesar da qualidade, como Ben-Hur, de William Wyler (1959) e Os Dez Mandamentos (1956), de Cecil B. de Mille. O segundo, com suas cores berrantes quase almodovarianas, parece “brega” em comparação com universos visuais como Gladiador e a série televisiva Game of Thrones.

Musicais também sofrem com o envelhecimento. Gigi, de 1958 e Sinfonia de Paris, de 1951, revistos há alguns meses, não têm mais o frescor de quando lançados, considerados brilhantes e vencedores de dezenas de Oscar. Em compensação, Cantando na Chuva, de 1952, mantém o humor afiado e a pegada.

Filmes, portanto, não seguem necessariamente a regra do vinho: quanto mais velho, melhor. Alguns, melhoram. Outros, infelizmente, começam a virar vinagre.