Valério Mesquita

20/04/2017

Justamente por não me acudir a jurisprudência da amizade, sou mais do que isento para lhe prestar um testemunho. Não fui seu correligionário nem eleitor por conta das circunstâncias política da época. Mas, de longe, admirava o padre governador, o seu trajeto, enfeitiçado pelo cigano Aluízio. Walfredo, além do carisma próprio, do altivo porte, irradiava uma simpatia mística até aos seus adversários políticos. Monsenhor era humano, adepto da caipirinha, do vício do cigarro e sofredor do Alecrim. No expediente palaciano era tão pontual quanto na missa. A sua conduta na vida pública do Rio Grande do Norte, sem dúvida,  me faz acreditar que foi uma vida em linha reta.

Nasceu politicamente no velho PSD, lá do sertão do Seridó. Autêntico fibra-longa, das vazantes do ltans. Deputado federal, vice-governador, senador, governador do Rio Grande do Norte. Mandatos históricos, misteriosos, tanto quanto os mistérios da fé. E como eram místicos, mágicos, os padres conservadores sem as neuroses e as banalidades dos padrecos comunistas de hoje!! Soube, muito tempo depois, o quanto Walfredo sofreu no período da caça aos bruxos. Quanto lhe custou o sacrifício de não delatar. Indigitar, acusar! A célebre conversa com Costa e Silva e a resistência espartana e cristã, que ainda faz lembrar os primeiros cristãos imolados na arena romana. Por tudo isso, o monsenhor vive. Passarão os anos e alguns políticos, mas as suas virtudes não passarão.

Não fui dele apóstolo, seguidor e nem ao menos ouvi o galo cantar três vezes. Sou, apenas, um 13º apóstolo, que sobreviveu do seu sermão, para que pudesse dizer, muito tempo depois, que vi um homem puramente cristão, um padre verdadeiramente político e um cidadão acima de qualquer suspeita. Deus foi quem mandou.

A homenagem que lhe presto tem o condão de resgatá-lo. Vindo ao mundo em 1908, ele se tornou um símbolo no dizer do seu biógrafo, o memorável Bianor Medeiros. No seu livro publicado pelo Senado Federal, relatou o testemunho do então senador Dinarte Mariz, que assim se expressou: “É injusto atribuir-se improbidade ao saudoso monsenhor Walfredo Gurgel, que de 1966 a 1971, governou o Rio Grande do Norte. Fui seu adversário, sou insuspeito para julgar sua memória: ninguém foi pessoalmente, mais probo e mais honesto”. Muitos deporam sobre ele. Nesse ensejo convêm despertar a classe política, a igreja, a cultura e a educação para saudá-lo e reviver o brilho de sua humildade cristã. O monsenhor merece mais. Foi discreto, humilde, ao ponto de perenizar os caminhos que trilhou nos deixando um legado de ações e obras em prol do bem comum.

Dele, dentre tantos que já divulguei, relembro duas histórias do folclore político:

01) Parelhas, ano da graça de 1967. Manoel Virgílio do Nascimento, seridoense, 80 anos, reencontra-se com o conterrâneo e amigo monsenhor Walfredo Gurgel, governador do estado. Havia muito tempo que não se avistavam. Alegria, abraços e as perguntas inevitáveis do padre: “Manoel, que prazer! E esses meninos, são seus netos?”. “Não, governador, são meus filhos”, responde o velho sem perder o prumo. “Mas, seus filhos, você já com essa idade?”. “Pois é, governador, o segredo é treinar sempre”, fechou o firo da conversa o seridoense de fibra longa.

02) Certa vez, numa reunião do secretariado, o monsenhor convidou a todos para a festa de Nossa Senhora de Santana na sua Caicó. Todos assentiram, inclusive, o general Ulisses Cavalcante, secretário de segurança que era radicalmente contra a exploração dos chamados “jogos de azar”, tão comum nas festas paroquiais e profanas do interior. “Vou governador, mas chagando lá não deixarei de agir e fechar todo o tipo de jogo!”. Lembrando-se dos seus correligionários que bancavam o joguinho, o monsenhor não esperou pra depois: “Ô Ulisses, sendo assim você está desconvidado, porque lá quem manda sou eu. Festa sem esses divertimentos não presta. É a tradição!”. E Ulisses não foi.